
Alguns cães já adultos e, principalmente os filhotes, são naturalmente curiosos e muito ávidos de explorar tudo ao seu redor. Assim sendo, cheiram tudo, comem tudo, lambem tudo e, enfim, são totalmente inocentes, curiosos e desajuizados.
Sabendo disso, cabe-nos por eles olhar e deles cuidar com a devida responsabilidade para que não os deixemos a mercê de uma série de possíveis perigos que muitas vezes nós mesmos sequer sabemos que possam causar graves problemas e até mesmo óbitos ou sequelas irreparáveis aos cãezinhos.

Um desses perigos é a ingestão de algumas plantas que, rotineiramente podem ser encontradas em nossa própria casa, jardins, parques e praças públicas.
Dentre essas plantas podem ser citadas como tóxicas para cães: Dama-da-Noite, Azaleia, Mamona, Espirradeira, Coroa de Cristo, Bico de Papagaio, glicínia, espada de São Jorge, Samambaias de um modo geral, Comigo Ninguém Pode, Costela de Adão, Antúrio, dentre inúmeras outras.
Porém, uma delas merece destaque pela alta toxicidade e gravidade dos sintomas que, na melhor das hipóteses geralmente levam sempre a sequelas irreparáveis ou, na pior e mais provável das hipóteses, ao óbito.
Trata-se da Palmeira Cica (Cycas revoluta), também conhecida no Brasil como Sagu-de-Jardim, é nativa da China, e de Kyushu e Ilhas Ryukyu, no Japão. Esta espécie tem importância ornamental, porém é altamente tóxica se ingerida, pois produz três toxinas altamente venenosas, a saber: Cicasina, Beta-metilamino-Lalanina, e uma outra toxina ainda não totalmente identificada.

A Cicasina é convertida à metilazoximetanol, podendo causar necrose (morte das células) hepática, distúrbios de coagulação e irritação gastrointestinal. É atribuída à Cicasina ação altamente cancerígena, mutagênica e teratogênica. A toxina não identificada, pode causar paralisia dos membros posteriores por causa da degeneração axonal no sistema nervoso central.
Todas as partes da planta são tóxicas, sendo que as sementes apresentam maiores concentrações de Cicasina.
Em geral os cães não a procuram habitualmente, porém se as folhas forem cortadas em poda, ela expele uma seiva muito palatável, olfativa e atrativa para os cães e, eles rapidamente a procuram para então ingerirem essa seiva viscosa. Também adoram os pequenos frutos.
Uma vez ingerida a seiva e/ou os frutos, começam os problemas. As sementes também são muito palatáveis e atrativas para os cães. As maiores concentrações das toxinas dessa planta encontram-se nos frutos, nas raízes e na seiva.
Os sinais clínicos mais comuns são os distúrbios gastrointestinais, insuficiência hepático crônica, distúrbios neurológicos, vômitos agudos, diarreia e dor abdominal persistentes nas 12 primeiras horas após a ingestão.
Posteriormente, começam a surgir problemas neurológicos visíveis, tais como falta de coordenação motora dos membros, apatia, vômitos, diarreia, palidez e opalescência da esclerótica (ou esclera) ocular que fica com uma tonalidade amarelada e característica.
Já que não existem exames laboratoriais ou patológicos específicos, a relação etiológica deve ser baseada na observação ou na possibilidade de ingestão da planta.
Não há antídoto conhecido para qualquer toxina derivada dessa palmeira, por isso o tratamento sempre será o de suporte, podendo-se proceder à lavagem gástrica e uso do carvão ativado se a ingestão tiver ocorrida a poucas horas.
Em síntese, em caso de ocorrer a eventual ingestão dessa planta, muito dificilmente haverá algo a ser feito para que o cão não fique com sequelas neurológicas ou venha à óbito.
ASSIM SENDO, A MELHOR RECOMENDAÇÃO É EVITAR QUE O CÃO TENHA QUALQUER CONTATO COM A MESMA.
Outra planta muito perigosa pelo elevado teor de toxicidade é o Oleandro, também conhecido popularmente como Espirradeira. Trata-se de uma planta muito usada de forma ornamental em parques e jardins públicos, pois apresenta uma forma e aparência muito bonita e harmoniosa, por esse motivo é muito cultivada em zonas rurais para enfeites de jardins, beiradas de cercas e chegadas de algumas residências.
Entretanto todas as partes dessa planta apresentam substâncias tóxicas para os animais. Ao ingerir essa planta o animal por apresentar arritmias, vômitos, diarreia, ataxia, dispneia, paralisia, coma e GERALMENTE EVOLUI PARA O ÓBITO.
Tem como princípios ativos a oleandrina, a qual é um cardenolídeo (ou glicosídeo cardiotóxico) e a neriantina, substâncias extraordinariamente tóxicas, compostos da classe dos heterosídeos, cardiotônicos, estes que por sua vez são responsáveis por aumentar os batimentos cardíacos.
Somente a título de exemplo para ilustrar a elevadíssima toxicidade dessa planta, basta que seja ingerida uma folha para matar um homem de 80 kg. Há inclusive registros que as propriedades tóxicas do Oleandro têm sido usadas como instrumento de suicídio desde a antiguidade.
Felizmente, ao contrário da Palmeira Cica, essa planta não apresenta qualquer atratividade aos cães, pois não é palatável. Os eventuais acidentes de intoxicação que ocorrem com essa planta, são sempre de forma indireta, ou seja: ingestão de algum tipo de alimento onde houve contaminação pela seiva da planta após alguma poda; absorção pela saliva por contaminação de algum brinquedo que tenha tido contato com a seiva da planta após alguma poda; absorção pela saliva por contaminação de algum graveto da planta usado de maneira inadvertida pelo tutor em algum parque para brincar com o cão; enfim, são quase sempre situações semelhantes às citadas.
Finalizando, vamos citar outro tipo de planta, muito conhecido e amplamente utilizado em diversos projetos de paisagismo, residências, parques e jardins públicos e que, também trazem sérios problemas aos cães.
Tratam-se das Euphórbias, comum e erroneamente confundidas com cactos, porém distinguindo-se destes por apresentarem formação distinta dos espinhos, das aréolas e das flores e, a principal diferença, enquanto as Euphórbias produzem látex altamente tóxico (muito irritante para a pele e os olhos), os cactos produzem apenas uma seiva aquosa e não toxica.
A título de exemplo, Euphórbias bastante populares e amplamente utilizadas de forma ornamental são o Cacto Candelabro (Euphórbias ingens) e a Coroa de Cristo (Euphórbias milii).
As substâncias tóxicas das Euphórbias estão concentradas no látex, tendo sido identificadas como ésteres do forbol e glicosídeos cianogênios. Essas substâncias agem sobre os tecidos causando uma reação inflamatória severa além de induzirem à formação de tumores.
Os glicosídeos cianogênios são substâncias presentes em vários alimentos (nas sementes de maçãs e no interior carnoso das sementes de ameixas, pêssegos, cerejas, entre outros) mas, quando ingeridas em grande quantidade, são capazes de provocar dispneia acentuada, taquicardia E ATÉ MESMO LEVAR À MORTE.
Embora essas plantas possuam espinhos e látex nada palatável, os cães têm o hábito de mastigá-las e, sob tais circunstâncias causam-lhes transtornos gastrointestinais severos, PODENDO ATÉ EVOLUIR PARA O ÓBITO. Se eventualmente esse látex entrar em contato com os olhos, a POSSIBILIDADE DE VIR A CEGÁ-LOS É BASTANTE GRANDE.
A planta Comigo-Ninguém-Pode (Dieffenbachia SSP) também é outra potencialmente perigosa para os cães. Muito utilizada em residências e apartamentos como paisagismo e, pela difusão da crença popular que tal planta possua algum tipo de “efeito espiritual que proteja o ambiente contra mau olhado”.
Essa planta possui grande quantidade de oxalato de cálcio em formato de agulhas, uma substância que, em contato ou se ingerida, causa irritação da pele e das mucosas. Essa planta contém também proteases semelhantes à tripsina, que induzem a produção das cininas que agem como mediadores químicos no processo de inflamação.

A ingestão dessa substância pode provocar edemas, irritação, inchaço e ulcerações nas mucosas (boca, faringe, etc.), vomito e diarreia (todos acompanhados de sangue), asfixia e ATÉ MORTE.
O tratamento pode ser feito com lavagem gástrica ou medidas que provoquem vômitos, isso com muito cuidado, em virtude dos efeitos irritantes da planta.
Visto que o tratamento é sintomático, ele pode ser feito também com administração de demulcentes como leite, clara de ovos, óleo de oliva, bochechos com soluções de hidróxido de alumínio e ainda antiespasmódicos e analgésicos, sendo que anti-histamínicos também são utilizados e, em casos mais graves, poderiam ser administrados corticosteroides.

Como se pôde observar, inúmeras são as plantas que podem causar sérios problemas de saúde aos cães, muitas vezes sem que sequer saibamos o real motivo quando o problema eventualmente ocorre.
Procuramos neste artigo técnico apresentar e descrever quatro dessas plantas, por julgarmos serem aquelas que são potencialmente mais perigosas SOB O ASPECTO DE HAVER RISCO IMINENTE DE ÓBITO.
Tratam-se de plantas relativamente comuns, muito utilizadas para diversas finalidades de paisagismos e que, certamente passam despercebidas quanto ao risco, no cotidiano de muitas pessoas. Assim sendo, esperamos que este trabalho possa vir a colaborar para evitar que futuros acidentes ocorram com cães.

