Sempre há certa polêmica quando o assunto está associado à castração de cães, principalmente no que tange aos eventuais benefícios ou prejuízos que tal prática proporciona aos animais, assim como em qual idade seria recomendável que isso seja feito. Sobre tal assunto, parece haver mais discórdia que consenso, porém não é intenção deste artigo enveredar pelo aspecto da polemização do tema, e sim tentar apresentar alguns tópicos a serem discutidos e observados, exclusivamente sob o ponto de vista científico, com apresentação de diversas referências bibliográficas de estudos bem embasados sobre o tema, assim como registrar a experiência particular em nosso canil de cães da raça Rottweiler.

Antes de tudo há de se observar que a castração geralmente é segura e sem contraindicações, tratando-se de uma cirurgia eletiva, ou seja, é feita por exclusiva escolha do tutor, exceto em alguns casos específicos em que ela é necessária para salvaguarda da saúde do animal, tais como câncer de próstata, piometra, dentre outros.
Nas fêmeas, a castração consiste na retirada do útero e dos ovários, enquanto que nos machos consiste na retirada dos testículos. Para a realização da cirurgia, é sempre levado em consideração a idade do animal e o seu histórico de saúde. Animais debilitados, enfermos ou com baixo peso para a idade não devem ser submetidos à cirurgia, a menos que exista indicação médica para a realização do procedimento. Por conta disso, exames pré-operatórios são extremamente importantes para atestar a condição de saúde do animal.
Uma avaliação comportamental também pode ser indicada em alguns casos, pois em situações específicas a castração pode ser contraindicada em determinado momento, sendo importante um trabalho comportamental prévio para então partir posteriormente para o procedimento cirúrgico.
Uma pergunta relativamente frequente que se faz sobre esse assunto é a seguinte:
Qual o momento mais recomendável para castrar um cão?

- Cadelas: Nunca antes do primeiro cio, porém mais recomendável após o segundo cio;
- Cães (pequeno e médio porte): após um ano;
- Cães (porte grande e gigante): entre um ano e meio e dois anos;
- Cães e cadelas: a qualquer idade, desde que constatada alguma doença (piometra, câncer de próstata) que justifique tal prática.
Inúmeros são os argumentos que incentivam a castração de cães, tais como: prevenção de algumas doenças tais como câncer de próstata e piometra, evitar reproduções indesejadas e, por consequência reduzir o abandono de animais, diminuição de comportamentos agressivos, marcação de território e instintos de fuga, dentre inúmeros outros. Todos esses argumentos e, mais alguns outros, se analisados com mais profundidade, não se fundamentam na íntegra com o intuito que são utilizados em relação ao tema e, até mesmo, inúmeras vezes servem como subterfúgio para que o assunto não seja discutido e analisado com mais profundidade e à luz da ciência.
Por exemplo há de se citar que inúmeros estudos científicos e muito bem embasados, demonstram para algumas raças de cães (Ex: Rottweilers) que a castração não previne determinados tipos de cânceres como se afirma habitualmente de forma quase dogmática que isso ASSIM ocorra.
A origem de muitos cânceres ainda é um mistério científico e, com certeza absoluta está associada a inúmeros fatores e, não propriamente à supressão de determinados hormônios.
Abrindo parênteses nessa questão, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), são esperados 704 mil casos novos de câncer no Brasil para cada ano do triênio 2023-2025, ou seja, até o ano de 2025 espera-se que ocorram mais 2112 novos casos de cânceres no Brasil.
O tumor maligno mais incidente no Brasil é o de pele não melanoma (31,3% do total de casos), seguido pelos de mama feminina (10,5%), próstata (10,2%), cólon e reto (6,5%), pulmão (4,6%) e estômago (3,1%). Em homens, o câncer de próstata é predominante em todas as regiões, totalizando 72 mil casos novos estimados a cada ano do próximo triênio. Já nas mulheres, o câncer de mama é o mais incidente, com 74 mil casos novos previstos por ano até 2025.
Partindo dessa estatística oficial de um órgão do Ministério da Saúde, há de considerar que, também nos seres humanos, essa doença tem merecido bastante atenção, pois assim como nos cães, é bastante agressiva e igualmente letal.
Ocorre que, para os seres humanos nunca se cogitou a hipótese de castração para a prevenção dessa doença, ou seja, sempre se adota o controle preventivo através de check ups regulares, manutenção de hábitos saudáveis (alimentação, exercícios, peso, etc.), dentre inúmeras outras medidas.

Voltando à questão anterior sobre argumentos que incentivam castrações, afirmar de forma generalizada, por exemplo, que o comportamento de um cão muda após a castração não é necessariamente verdade, pois o comportamento de qualquer indivíduo de qualquer espécie, não é uma ciência exata, podendo sofrer alterações a qualquer momento e sob quaisquer circunstâncias alheias aos hormônios propriamente ditos.
Não é porque se suprime determinado hormônio que automaticamente o comportamento irá mudar. Da mesma maneira, a demarcação de território também é uma condição que está muito associada a cada indivíduo, pois há inúmeros cães castrados que demarcam território.

Outra questão são as fugas constantes que, nem sempre estão associadas a questões de acasalamento. Inúmeros são os motivos que levam determinados cães a fugas constantes, inclusive condições associadas aos acasalamentos, porém associar a castração à resolução desse problema comportamental é uma falácia.
Outra questão muito abordada diz respeito a tendência à obesidade dos cães após a castração. Na verdade, é fato que ao suprimir as gônadas e, por consequência a produção de determinados hormônios, o metabolismo do animal se modifica e, realmente tende a ficar mais lento, porém associar isso à obesidade também não é verdade. Um animal castrado não é necessariamente sinônimo de um animal obeso.

Por fim, a questão de associar a necessidade de castração de um animal visando evitar reproduções indesejadas e, por consequência o abandono de animais, deve considerar dois prismas a serem analisados, ou seja: a real necessidade de controlar a reprodução desenfreada de cães de rua abandonados à própria sorte por questões de saúde pública (zoonoses) e, uma questão muito séria e raramente discutida pela sociedade com a devida profundidade, a responsabilidade humana.
Abandonar um animal a sua própria sorte além de ser desumano e covarde, não é um ato responsável e muito menos digno de qualquer justificativa por parte de quem quer que seja.

Há de se considerar ainda que, hormônios não são uni funcionais, ou seja, seus efeitos são sistêmicos, resultando assim no fato de que a retirada das gônadas (órgãos que produzem células sexuais sendo os ovários os representantes do sexo feminino e os testículos, do sexo masculino) implica em muito mais consequências do que apenas extinguir a capacidade reprodutiva do animal.
Há inúmeras outras técnicas muitíssimo eficazes que visam a esterilização dos animais sob o ponto de vista reprodutivo, em que não se faz necessária a retirada das gônadas, a saber: a vasectomia, a laqueadura e a histerectomia parcial.
Embora ainda pouco adotadas na Medicina Veterinária no Brasil, todas essas técnicas são perfeitamente eficazes sob o aspecto da esterilização.

Na sequência, serão apresentados alguns estudos científicos (com as devidas referências bibliográficas que os embasam registradas ao final deste artigo técnico), que demonstram cientificamente uma série de controvérsias sobre o tema, dentre elas o fato de que a castração previne determinados tipos de cânceres, fugas constantes, demarcação de território, agressividade, diabetes, hipotireoidismo, dentre outros temas.
Se houver interesse por parte dos leitores, podem pesquisar na Internet (Google por exemplo) que certamente encontrarão inúmeros outros artigos técnicos muito bem embasados cientificamente sobre o referido tema. Também é fato que existem inúmeros trabalhos que defendem teses divergentes sobre o assunto, porém cabe a cada tutor discernir com bom senso e com a razão, o que deve ser feito e qual decisão tomar.
Há de se considerar, no entanto que, em biologia grande parte das vezes não se pode tirar qualquer conclusão definitiva sobre determinado assunto sem que seja devidamente avaliado o maior número de variáveis que o envolve.
Sobre o tema em questão, parece razoável admitir que são necessários estudos adicionais sobre os efeitos biológicos da castração e, por consequência, da remoção dos hormônios gonadais e sobre métodos para tornar os cães inférteis que não envolvam a castração propriamente dita (gonadectomia).
Os veterinários devem discutir os benefícios e possíveis efeitos adversos das castrações com os seus clientes, levando em consideração a raça do cão, as circunstâncias do proprietário que o levam a tal decisão e o uso previsto do cão (companhia, guarda e proteção, etc.).
Para cães de grande porte, à luz da ciência, parece razoável crer que a castração não deve servir de argumento para prevenir uma série de doenças como se tem feito por muitos anos.

Existem inúmeros estudos que evidenciam maior incidência determinados tipos de cânceres em cães castrados do que em cães inteiros.
- Alguns estudos (Torres de La Riva G.; Hart B.L.; Farver T.B.; Oberbauer A.M.; Mc V. Messan L.L.; et al – 2013) efetuados com cães da raça Golden Retriever concluíram haver uma incidência três vezes maior de linforsarcoma em cães castrados do que em cães inteiros. Esses autores propõem que enquanto o estrogénio permanecer no organismo poderá ter um efeito protetor contra a ativação de algumas células cancerígenas. Assim, em fêmeas inteiras, o estrogénio poderá ter uma ação protetora contra o desenvolvimento de células tumorais. No caso das esterilizações precoces, antes do primeiro estro, estas potenciais células neoplásicas não são sensibilizadas pelo estrogénio, pelo que a esterilização não terá qualquer efeito no desenvolvimento tumoral. Um estudo (Ru G.; Terracini B.; Glikmann L.T. – 1998) evidencia que cães castrados têm duas vezes mais probabilidade de adquirir osteosarcoma se comparados a cães inteiros.
- Um outro estudo (Cooley D.M.; Beranek B.C.; Schilitter D.L.; Glickman L.T.; et al – 2002) mostrou que para cães da raça Rottweiler castrados antes de completar um ano de idade, a incidência de osteosarcoma foi de 3 a 4 vezes maior se comparado a cães inteiros.
- Um estudo bastante aprofundado (Prymak, C.; Mckee L.J.; Goldschimidth M.H.; Glickman L.T. – 1988) concluiu que para fêmeas castradas observou-se uma incidência de emangiosarcoma esplênico duas vezes superior se comparado a fêmeas não castradas (inteiras).
- Outro estudo (White C.R.; Holenhaus A.E.; Kelsey J; Procter-Grey E. – 2011) concluiu que a incidência de mastocitoma é quatro vezes maior em fêmeas castradas se comparado a fêmeas inteiras.
- Alguns estudos (Haines et al., 1984; Reichler, 2008/2009; Panciera, 1994) mostraram ocorrer maior incidência de hipotireoidismo em cães castrados em comparação com cães inteiros.
- Também há estudos (Panciera, 1994 (Scaramal et al., 1997; Reichler, 2009) que evidenciam maior incidência de diabetes em cães castrados em comparação com cães inteiros.
- Estudos efetuados (Zink M.C..; Farhoody P.; Elser S.E..; Ruffini L.D.; Gibbons T.A..; Rieger R.H. – 2014) com cães da raça Vizsla concluíram que fêmeas esterilizadas com menos de 1 ano apresentam 6 vezes maior risco e fêmeas esterilizadas com mais de 1 ano têm 11,5 vezes maior risco, para o aparecimento de hemangiossarcomas, em comparação com fêmeas inteiras. Neste mesmo estudo concluíram ainda que machos castrados com mais de 1 ano apresentam 5,3 vezes maior risco de exibir a doença do que machos inteiros. Uma provável explicação para estes resultados está relacionada com a supressão da produção dos hormônios esteroides produzidos pelas gônadas, em particular os estrogénos. Esses hormônios têm um importante papel no crescimento, diferenciação e função de muitas células envolvidas na imunidade e hemóstase do organismo.
- Alguns estudos demonstram mais reatividade e agressividade em cadelas e gatas castradas, em diferentes idades, quando comparadas com fêmeas intactas (Burrow et al., 2005; Salman et al., 2000; Kim et al., 2006; Hardie, 2007), devido possivelmente ao decréscimo nas concentrações de estrógeno, progesterona e ocitocina, substâncias com possíveis efeitos ansiolíticos em algumas espécies (McCarthy et al., 1997; Kim et al., 2006). Spain et al. (2004) revelam aumento das fobias relacionadas a barulho e redução na manifestação de alguns comportamentos como ansiedade de separação e micção por submissão em cães castrados (gonadectomizados).

No canil Rottwunder, criamos cães da raça Rottweiler desde 2011 e, até o presente momento (2023) tivemos apenas três casos de cânceres, a saber: um macho com oito anos apresentou osteossarcoma na cabeça do fêmur; outro macho com seis anos apresentou câncer renal e, uma fêmea com sete anos apresentou leucemia linfoblástica crônica (LLC).
Todos esses casos, uma vez identificados e diagnosticados, foram devidamente tratados conforme protocolos médico veterinários específicos para cada caso, porém no decorrer do tempo, infelizmente evoluíram para o óbito dos animais.
Parte do nosso plantel é composto atualmente por cães com idades entre 7 e 11 anos, pois temos por premissa a manutenção de todos os cães que fazem parte do nosso plantel, desde o nascimento até o fim da vida e, são feitos exames preventivos regulares (bimestralmente) em todos eles, principalmente nos mais idosos. Nunca tivemos nenhum cão castrado e também não temos problemas comportamentais tais como fugas e agressividade entre indivíduos.

Muitas pessoas nos visitam regularmente e “são recebidos” por diversos cães, com os quais interagem sem problema algum, fato que pode ser facilmente constatado através de visualização em nosso Intagram (@rottwunder).
Dentre esses cães, há machos e fêmeas que interagem em grupo e sem qualquer agressividade entre si em com as pessoas que aqui nos visitam.
Atualmente (2023) quem nos visita pode interagir com uma pequena matilha composta por três machos (Bunker; Panzer e Kong) e duas fêmeas (Tekila e Black), tirando fotos, fazendo carinho e, enfim, todo tipo de contato visual e corporal.

Isto posto, há de se considerar que, assim como ocorre com os seres humanos, a manutenção regular da qualidade de vida, da higiene e de bons hábitos alimentares associados a uma rotina de exames preventivos são fatores fundamentais para que determinadas doenças simplesmente jamais ocorram ou, sejam tratadas facilmente se eventualmente vierem a ocorrer e forem diagnosticadas previamente, em uma fase inicial.
Não parece razoável nem mesmo sensato simplesmente atribuir à castração a resolução de uma série de problemas tais como os aqui abordados, principalmente aqueles associados a questões comportamentais ou a uma diversidade de cânceres.
Como dito inicialmente neste artigo técnico, não é nosso interesse enveredar pela polêmica que envolve tal assunto e sim, apresentar aos leitores, à luz da ciência, uma série de estudos muito bem embasados e que contrapõem a tese habitual, muitas vezes até dogmática, de que a castração soluciona uma série de “pseudo problemas” em animais.
Como se pode notar, não é tão simples assim e, em parte das situações, essa prática traz mais problemas do que soluções.
PARA REFLEXÃO. FICA A DICA!!!
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