
A displasia coxofemoral ou displasia de anca ou quadril é uma afecção de cães definida como uma doença biomecânica, cuja origem pode ser hereditária ou adquirida ao longo da vida, representada pela disparidade entre a massa muscular primária e o rápido crescimento ósseo, levando a uma instabilidade na articulação coxofemoral (conexão entre a cabeça do fêmur, ligamento e acetábulo). A displasia coxofemoral é caracterizada por uma instabilidade na articulação coxofemoral (a conexão entre a cabeça do fêmur, ligamento e acetábulo) causando gradual perda da cartilagem e por consequência o desgaste e deformação da cabeça do fêmur e do acetábulo, causando dor e dificuldade de locomoção.

A etiologia ou causa é bastante variada, incluindo:
- Rápido desenvolvimento ósseo sem sincronia com o desenvolvimento muscular;
- Excessiva alimentação resultando em sobrepeso elevado;
- Distrofia da musculatura decorrente de exercícios intensos em filhotes;
- Impactos frequentes dos cães em pisos com superfícies lisas e/ou rígidas;
- Ossificação endocondral anormal;
- Associação de diversos fatores acima relacionados.
Como se pode observar, essa enfermidade é de origem multifatorial, sendo que fatores como idade, raça, sexo, tamanho do animal, conformação, nutrição e massa muscular pélvica também, têm implicação no desenvolvimento da doença, entretanto a frouxidão articular é considerada o fator primário. Quando hereditária, geralmente os filhotes são normais na primeira semana de vida e apenas posteriormente, à medida que crescem, vão desenvolvendo a doença de forma gradativa. Nestes casos, os sinais tardios podem começar até os 24 meses de idade.
Em caso de displasia adquirida, para preveni-la é importante evitar pisos lisos onde os cães permanecerão, realizar exercícios moderados visando fortalecer a musculatura da pélvis, e evitar-se ao máximo a obesidade. A dor, com consequente claudicação (ato de mancar) e eventual impotência funcional do(s) membro(s) pélvico(s), é causada inicialmente (em animais jovens) pela lassidão e instabilidade articulares e, na fase crônica da doença (geralmente em animais adultos), pela degeneração da articulação devido à incongruência articular.

Tal degeneração resulta em lesões na cartilagem, micro fraturas da cabeça do fêmur e do acetábulo e processos inflamatórios da cápsula articular. Além disso, os tecidos moles próximos à região, como músculos, ligamentos e tendões, também são afetados pela condição, o que gera uma instabilidade ou desarmonia dessa articulação. Como consequência, essas partes ósseas chocam-se umas nas outras, em vez de deslizarem com suavidade durante a movimentação. Observar que esses últimos são sintomas da enfermidade já instalada e não propriamente a origem que permite avaliar o que os fez surgir, ou seja, se hereditariamente ou em decorrência de hábitos cotidianos do animal. O método de diagnóstico mais aceito pelo meio veterinário é o exame radiográfico.
No método radiográfico convencional (MRC) os critérios de classificação e a idade do animal para realização do exame variam consideravelmente. Recomenda-se que o exame seja feito de forma meramente preventiva, com no mínimo, 12 meses de idade em raças de médio e grande porte. O diagnóstico depende da observação de evidências da frouxidão articular e alterações osteoartróticas. Eventualmente em casos muito graves, a doença poderá até ser identificada desde os seis meses até um ano de idade, caso contrário só aos 18 meses de idade ou mais.

É muito comum se pensar erroneamente que, o fato de um determinado casal de cães isento totalmente de qualquer sinal de displasia hereditária e devidamente laudado para tal, lhe confere automaticamente condição de que os filhotes descendentes desse casal não possuirão displasia. Isso não é verdade, pois de um casal de cães sem qualquer indicio de displasia, não raras as vezes surgem filhotes com displasia. Obviamente que, a possiblidade disso ocorrer é bastante inferior se comparado a filhotes oriundos de cães que apresentam tal problema.
Em síntese, filhotes com displasia podem ser originados de cães que apresentam ou não esse problema.

Não se trata de uma regra matemática, embora admita-se que o controle desse problema reduza as possibilidades de propagação em determinado plantel. No Brasil, dentre as dez raças com maiores números de registros em 2018 pela Confederação Brasileira de Cinófila (CBKC/2018), as maiores prevalências dessa doença foram verificadas em Bulldogs com 70,9%, Pug com 70%, Fila Brasileiro com 30%, American Pit Bull Terrier com 23,2%, Rottweiler com 21,2%, Shih Tzu com 20,9%, Golden Retriever com 19,9%, Beagle com 17,8%, Akita com 13.5% e o Labrador Retriever com 12,1%.
Em síntese, o método de seleção de reprodutores baseando-se unicamente pelo seu próprio fenótipo (laudo de RX), tem sucesso muito limitado, tanto que a comunidade científica e cinófila tem voltado sua atenção para investigações que possibilitassem a criação de outros procedimentos mais eficazes.
Apesar de que o exame radiográfico possa ser realizado mais cedo, o diagnóstico definitivo só é dado aos cães à partir de 1,5 anos (18 meses) de idade, ou seja, após estabilizado o desenvolvimento ósseo do animal.
O tratamento da displasia coxofemoral pode ser conservativo com anti-inflamatórios não esteroides, analgésicos e condroprotetores, redução de exercícios (principalmente aqueles que envolvam impactos das articulações), controle do peso, fisioterapia; ou cirúrgico com pectinectomia, osteotomias corretivas, artroplastia das bordas acetabulares, osteotomia pélvica tripla, sinfisiodese, e denervação.
Um cão que tem displasia coxofemoral pode viver normalmente, levando-se em consideração cuidados de obesidade, exercícios e medicação.

O Ângulo de Norberg (AN) é uma medida usada para avaliação do deslocamento da cabeça femoral do acetábulo e foi descrita inicialmente por pesquisadores em 1961. Propuseram tais pesquisadores, que a borda cranial do acetábulo para ser considerada normal, deve estar situada a não menos que 15° lateralmente a uma linha em ângulo reto a uma linha entre os centros das cabeças femorais.
Essencialmente, estabeleceram então que um ângulo menor que 105° era indicativo de articulação coxofemoral anormal. É geralmente aceitável que um ângulo de 105° é o limiar da articulação normal mensurada numa projeção radiográfica com os membros estendidos.
Em síntese, o Ângulo de Norberg (AN) é uma mensuração da frouxidão articular visível na projeção padrão, sendo esse um critério adotado no método radiográfico convencional (MRC) que permite quantificar razoavelmente bem a relação entre a cabeça do fêmur e o acetábulo onde está inserido.
Resumidamente, se for igual ou superior a 105º a articulação é considerada normal. Sua medida em idade precoce pode ser útil para determinar o grau de subluxação coxofemoral em idade adulta. No entanto, estudos observaram que uma determinada porcentagem de cães classificados pelo método radiográfico convencional (MRC) como normais apresentaram sintomas característicos de displasia ao fim da vida em idades mais avançadas.
Uma das alterações radiográficas da Displasia Coxofemoral (DCF) é a mudança no formato do acetábulo, caracterizada pelo arrasamento das bordas dorsal e crânio lateral. O acetábulo raso vai contribuir potencialmente para um menor percentual de cobertura (PC). Quanto menos saliente for a proeminência cranial do acetábulo, menor será o ângulo de Norberg (AN), sendo essa associação positiva entre o ângulo de Norberg (AN) e o percentual de cobertura.
Como a gravidade da Displasia Coxofemoral (DCF) aumenta com o avanço da idade, é esperado que à medida que o animal envelheça, ocorra a progressão da doença e o agravamento da Doença Articular Degenerativa (DAD), com maior arrasamento do acetábulo, resultando em menor ângulo de Norberg (AN), menor porcentagem de cobertura e maior grau displásico.
Essa condição indica que, devido ao efeito da idade, recomenda-se que os animais devam ser avaliados aproximadamente em faixa etária semelhante para que se possa efetuar qualquer eventual efeito comparativo entre estágios dessa enfermidade. Subluxações articulares também podem ser quantificadas através do cálculo do percentual da cabeça do fêmur coberto pelo acetábulo, ou seja, quanto maior a porcentagem de cobertura da cabeça femoral, mais congruente é a articulação.

A articulação coxofemoral representa o elo de ligação entre o acetábulo e o fêmur. Desta articulação fazem parte a superfície semilunar do acetábulo, a cabeça do fêmur e músculos e ligamentos a elas associados.
O acetábulo é constituído pela confluência do corpo de três ossos, o ílio, o ísquio e o púbis que se unem por uma sincondrose que posteriormente ossifica. Forma-se assim uma cavidade cotilóide semiesférica e profunda constituída por uma margem acetabular, uma fossa acetabular, a incisura acetabular e a face lunar.
A margem acetabular é aumentada em altura e superfície pelo lábio acetabular, e percorre toda a face lunar de forma crescente só sendo interrompido pela incisura acetabular onde passa o ligamento da cabeça do fêmur que se irá inserir numa zona central mais funda, a fossa acetabular.
Com o acetábulo, articula-se a cabeça do fêmur, sendo esse um osso longo que na sua extremidade proximal apresenta o trocânter maior e a cabeça do fêmur. Esta última apresenta a fóvea da cabeça, redonda e central, que é o local de inserção do ligamento da cabeça do fêmur, ou ligamento redondo.

Pela sua conformação encaixa perfeitamente no acetábulo, sendo que o lábio acetabular cobre não mais de metade da cabeça do fêmur. Forma-se assim a articulação coxofemoral, uma articulação esferóide que nos carnívoros, pelas características dos músculos e ligamentos da zona glútea e músculos da perna, proporciona alguma liberdade de movimentos de abdução e de rotação. A cápsula articular é muito extensa, inserindo-se na margem acetabular e no colo do fêmur. Tem um reforço fibroso dorsal chamado zona orbital e possui dois ligamentos que a reforçam cranial e caudalmente: o ligamento iliofemoral e o ligamento isquiofemoral, respetivamente. Outros ligamentos importantes relativos a esta articulação são o já mencionado ligamento da cabeça do fêmur envolvido pela membrana sinovial e o ligamento transverso do acetábulo que passa sobre a incisura do acetábulo e mantém o ligamento redondo na sua posição.

Como se pôde observar até então, a caracterização de Displasia Coxofemoral (DCF) cuja procedência seja hereditária não é tão simples assim, pois ao que parece, a maior parte desse problema quando identificado, decorre de condições externas e sobrecarga repetitiva das articulações do animal ao longo do tempo, ao que denominamos Displasia Coxofemoral Adquirida.
Seria como, por analogia comparativa, se andássemos frequentemente com um automóvel no limite de sua carga admissível, em terrenos irregulares e com pavimentação deficiente. Obviamente que, nessas circunstâncias, certamente os coxins dos amortecedores teriam sua vida útil bastante reduzida e, com certeza absoluta, essa situação não tem por origem a qualidade dessas peças e sim as condições cotidianas de uso a que foram submetidas no decorrer do tempo

Também é muito importante pensar na prevenção da doença ou em atitudes que impedem o agravamento da condição, como:
- Evitar oferecer comida à vontade para os filhotes, já que isso acelera o crescimento;
- Realizar passeios regulares, sem exagerar nos exercícios físicos, para que a musculatura se desenvolva de forma gradual e adequada;
- Praticar exercícios físicos moderados apenas a partir dos 3 meses de idade, protegendo-o da obesidade;
- Cuidar com o uso de suplementos, principalmente para os animais em fase de crescimento;
- Não deixar o animal em pisos muito lisos e escorregadios e subir e descer escadas com frequência na fase de crescimento.
A arquitetura genética da displasia coxofemoral é complexa, com muitos genes associados, tendo sua expressão combinada com a presença dos efeitos ambientais. Este fato torna difícil o desenvolvimento de testes genéticos, apesar da grande expectativa por parte de criadores e de profissionais de que a adoção de testes comerciais configure uma excelente ferramenta para o controle dessa doença. É fato que a genética desempenha um papel de grande relevância na prevalência displasia coxofemoral nas diversas raças, visto que as estimativas de herdabilidade para a doença são elevadas, assim como pelo conhecimento gerado de que há vários genes associados à displasia coxofemoral em raças distintas.
O método de seleção de reprodutores baseado nos valores genéticos dos cães (machos e fêmeas) é a alternativa mais viável para que a diminuição da prevalência dessa doença seja mais bem-sucedida nas próximas gerações. Profissionais que atuam na cinófila devem ter o conhecimento correto sobre a etiologia genética da displasia coxofemoral de modo a auxiliar na seleção efetiva de reprodutores.
Somente com a adoção de procedimentos técnicos de seleção de reprodutores e manejo adequados se atingirá a desejada melhoria no processo de prevenção dessa doença, o que é tão importante para o bem-estar animal.

No entanto, alguns autores e criadores sérios sugerem observar algumas dicas interessantes que, embora sem o devido embasamento técnico e científico, parecem razoavelmente simples e lógicas de serem compreendidas. Uma delas consiste no hábito que alguns cães têm desde bastante juvenis, de se deitarem com as pernas traseiras abertas.
Obviamente que, esse hábito advém da condição de tentarem se refrescar em dias mais quentes, buscando fazer com que sua barriga fique em contato direto com o piso, mas também trata-se de uma posição estratégica para os cães, pois lhes permite que consigam ficar em pé e se mover rapidamente assim que algo lhes desperte a atenção, como por exemplo, quando são chamados pelos seus tutores.
Alguns autores sugerem, que os cães que possuam tal hábito, em geral também têm personalidade forte, costumam ser muito agitados e motivados para brincar e se divertir. Independente dessas explicações e dessa linha de raciocínio que objetiva a caracterização da personalidade associada ao hábito de deitarem-se, há um fato a observar nessa condição em específico, ou seja, dificilmente um cão que tenha qualquer problema articular no quadril de origem hereditária, conseguiria deitar-se dessa maneira (com as patas traseiras totalmente abertas e esticadas) desde as idades mais precoces sem que isso lhe causasse algum incômodo ortopédico, o que o faria buscar automática e instintivamente outra posição mais confortável.
Isso quer dizer que, cães que têm por hábito deitarem-se com as pernas traseiras abertas desde as idades mais precoces, dificilmente terão problemas ortopédicos de origem hereditária nas articulações traseiras, pois certamente teriam uma série de desconfortos nessa posição.
No entanto, a recíproca não é necessariamente verdadeira, ou seja, concluir-se que cães que não possuam tal hábito, tenham automaticamente algum problema ortopédico nas articulações.
Assim sendo, recomenda-se prudência e muito bom senso quanto à tomada de conclusões respaldadas apenas nessa linha de raciocínio.
Finalizando, pelo exposto, conclui-se à luz da ciência que a Displasia Coxofemoral em cães é uma enfermidade que apresenta inúmeros fatores envolvidos, não apenas uma questão hereditária.
Assim sendo, pensar erroneamente que, o fato de um determinado casal de cães isento totalmente de qualquer sinal de displasia hereditária e devidamente laudado para tal, lhe confere automaticamente condição de garantia que os filhotes descendentes desse casal não possuirão displasia.
Isso não é verdade, POIS DE UM CASAL DE CÃES SEM QUALQUER INDÍCIO DE DISPLASIA, NÃO RARAS AS VEZES SURGEM FILHOTES COM DISPLASIA e, por vezes, ninhadas inteiras.
Obviamente que, a possiblidade disso ocorrer é bastante inferior se comparado a filhotes oriundos de cães que apresentam comprovadamente tal problema.
Em síntese, FILHOTES COM DISPLASIA PODEM SER ORIGINADOS DE CÃES QUE APRESENTAM OU NÃO ESSE PROBLEMA. Não é uma questão que qualquer criador erradica simplesmente laudando os cães do seu plantel para comprovar que não apresentam tal problema. É fato que tal procedimento ajuda no controle, porém não é condição suficiente para evitar e garantir que possa via a ocorrer.
SIMPLES ASSIM!!!

