Focinhos “curtos” em Rottweilers

Focinhos “curtos” em Rottweilers

Tentaremos abordar nas próximas linhas, um assunto controverso e por vezes até polêmico que, no entanto, surge de tempo em tempo e vira modismo e também muita discussão em grupos de Redes Sociais na Internet, por questões meramente dogmáticas e/ou de marketing e muitas vezes sem a devida fundamentação lógica e cientifica.

Trata-se do TAMANHO DO FOCINHO DO ROTTWEILER.

Sobre tal assunto, há pelo menos três linhas de raciocínio a serem analisadas, a saber:

  • Modismo e marketing: muitos procuram freneticamente por um determinado “padrão” totalmente associado ao fenótipo que julgam ideal ao seu desejo e satisfação pessoal. Sob tal aspecto, há de se observar que tal linha de raciocínio é um tanto quanto abstrata, pois “padrão” é sempre sazonal e “beleza” é sempre subjetiva, ou seja, ambos estão associados a um referencial muito particular.
  • Padrão e qualidade: Tanto a qualidade quanto o padrão nada mais são que modelos referenciais de, e para um determinado momento, de época, ou seja, que sempre muda com o decorrer do tempo em conformidade com novos conceitos, necessidades e desejos. Trata-se, portanto, de conceitos relativos e até mesmo subjetivos, estando sempre relacionados às percepções e necessidades de cada indivíduo e também a diversos outros fatores, como cultura, dentre outros. Simplificando, o que é tido como padrão de qualidade e excelência atualmente, pode não ter sido no passado e certamente não será no futuro.
  • Ciência: Embasamento lógico e devidamente fundamentado através de dados e estudos concretos. Trata-se do conhecimento atento e aprofundado de algo, caracterizado sempre por sua natureza empírica, lógica e sistemática, baseada em provas, princípios, argumentações ou demonstrações que garantam ou legitimem a sua validade.

Sem entrar no mérito do modismo, do marketing sazonal e/ou do tal “padrão”, procuraremos a seguir enveredar pelo aspecto científico no que tange à abordagem deste assunto, pois que, a preocupação de qualquer canil sério deve resumir-se a produzir Rottweilers diferenciados em relação ao padrão de saúde e estrutura e, que tenham rusticidade, longevidade e, principalmente qualidade de vida ao longo dos anos.

Do ponto de vista exclusivamente científico, há de se observar que todos os cães domésticos (Canis lupus familiaris) atualmente existentes derivam em algum momento de canídeos selvagens, particularmente o lobo cinzento (Canis lupus).

Há ainda de se compreender que, todas as raças de cães domésticos atualmente existentes, foram em algum momento “trabalhadas” pelo homem através de cruzamentos sucessivos e seletivos, visando sempre a fixação de alguma particularidade específica quanto ao objetivo a ser almejado, conforme seu próprio entendimento de “padrão” e em função de necessidades especificas de determinada região e cultura.

Assim, por exemplo, foram surgindo gradativamente as raças de cães domésticos destinados à caça, à prática de esportes, ao pastoreio, à guarda e segurança, à companhia e, ainda uma série de outras características fenotípicas, sendo também selecionados para realçarem determinadas características físicas como tamanho, formato do crânio, comprimento de pernas e focinhos, cor e textura e tamanho do pelo, etc.

Ocorre que, qualquer intervenção humana sempre colide com alguma regra natural em algum momento e, justamente nesse instante é que determinados problemas começam a surgir. A natureza tem suas próprias regras e as estabelece sempre através de uma determinada seleção que agrupa particularidades fenotípicas e genotípicas que visam adaptar os seres a condições muito particulares, visando sempre a preservação e a evolução das espécies. Sob tal linha de raciocínio, aqueles que melhor se adaptam e evoluem são sempre os que melhor se sucedem no decorrer do tempo.

A natureza não tem quaisquer compromissos com os desejos, com as particularidades e as vaidades dos seres humanos, ou seja, o “padrão” por nós estabelecido em grande parte das coisas, é muitíssimo diferente daquele que a natureza admite como sequer razoável.

 

Em síntese, sempre que nos distanciamos substancialmente do “padrão” estabelecido pela natureza através das suas próprias regras de evolução das espécies, caminhamos rumo a alguma situação inusitada e que, não raras as vezes, nos traz problemas.

 

Especificamente no tocante ao focinho, se observarmos o padrão natural dos canídeos, observaremos que existe uma “região geométrica triangular” muitíssimo bem definida, compreendida por uma linha que une a base das duas orelhas e a ponta do nariz. O formato dessa “área hipotética” resulta aproximadamente em um triângulo isósceles (dois lados iguais e maiores) ou equilátero (três lados iguais).

 

 

Do ponto de vista físico e cientifico, essa conformação adequa-se estruturalmente por evolução e seleção natural, ao padrão otimizado e necessário às necessidades da espécie, no caso, o lobo ancestral (Lupus canis).

Assim temos:

Se observarmos as três figuras geométricas (no caso triângulos), observaremos que a primeira (A) encontra-se relativamente mais aproximada ao padrão natural da “área triangular hipotética” apresentada na figura anterior para o lobo ancestral. Já, as outras figuras triangulares (B e C), apresentam a base com dimensão bastante divergente das dimensões dos outros dois catetos.

A figura abaixo, busca caracterizar cães da raça Rottweiler com focinho bastante curto e, de certa maneira, até desproporcional em relação à configuração estrutural craniana. Sob tal aspecto, há de se considerar que ocorre um distanciamento considerável em relação ao padrão natural de um canídeo, particularmente se considerarmos em se tratar de um cão de porte grande.

Quais as possíveis consequências físicas e fisiológicas dessa “padronização”?

Conforme já citado anteriormente, ao atuar como um mediador na reprodução dos cães, o homem passou então a selecionar as características que queriam que fossem passadas para as novas raças, seja por algum propósito estético ou por ser uma característica necessária para ele mesmo.

Essa “interferência humana” visando uma pseudo seleção e a obtenção de um “padrão” hipotético que estivesse vinculado a uma determinada necessidade ou satisfação, fixou uma série de características desejáveis, porém, também fixou muitas outras inesperadas e indesejáveis.

Em síntese, para os cães domésticos (Canis lupus familiaris), no que tange à “modificação do focinho” em decorrência da interferência humana em relação à matriz referencial ancestral, temos:

  1. Dolicocefálicos ou Dolicocéfalos: A cabeça é longa e estreita com a testa muito inclinada e focinho longo. Nos cães dolicocéfalos o comprimento (eixo longitudinal) ultrapassa muito a largura (eixo transversal). O crânio é estreito e longo, os arcos zigomáticos e as arcadas superciliares são pouco marcadas e a crista sagital é bem desenvolvida. As cavidades orbitárias são estreitas e laterais. (Exemplos: Galgo, Dachshund, Borzoi, etc.).
  2. Mesaticefálicos, mesocefálicos, mesaticéfalos ou mesocéfalos: As proporções são intermediárias, anatomicamente normais e proporcionais. O crânio é acentuadamente longo ou largo, os arcos zigomáticos e as arcadas superciliares são de desenvolvimento médio, sem exageros. As cavidades orbitárias são ovais e fronto-laterais. (Exemplos: Golden Retriever, Labrador, Rottweiler, Bernesse, Dálmata, Akita, etc.).
  3. Braquicéfalos ou braquicefálicos: Nos braquicéfalos o comprimento ultrapassa pouco a largura. O crânio é curto e largo, os arcos zigomáticos são muito desenvolvidos e robustos e as arcadas superciliares bem marcadas. As cavidades orbitárias são redondas e frontais. (Exemplos: Buldog, Pug, Lhasa Apso, etc.).

 

 

 

Quando se encurta o focinho de um cão, caminha-se ao encontro de uma condição denominada braquicefalia.

A braquicefalia (nome que vem do grego “braqui”, que significa curto e “cefálico”, que é cabeça) é uma deformidade nos ossos da cabeça, que é vista na forma de um achatamento do crânio, fazendo com que a cabeça seja mais curta que o normal, podendo ainda fazer parecer crer que seja mais alta quando vista lateralmente e mais larga quando vista de frente.

Cães braquicefálicos são aqueles em que se aparenta que os ossos do crânio se fundiram antes da hora, o que faz com que todas as estruturas que possuem na cabeça tendam a ficar “apertadas” no interior do crânio.

Dessa forma, muitos dos animais das raças que são afetadas pela braquicefalia apresentam diversos problemas, dentre eles os respiratórios e, em diferentes níveis de gravidade. Um fato interessante a ser observado é que na natureza não existem casos de animais com braquicefalia, o que prova que essa condição foi gerada pelo ser humano durante a criação de novas espécies de animais domésticos.

 

 

 

Em alguns casos a braquicefalia é tão pronunciada que pode causar até mesmo uma inflamação crônica na faringe, sem dizer no enorme prejuízo olfativo que acaba por decorrer desse problema.

A medida que se busca fixar geneticamente o encurtamento do focinho em direção ao crânio, há naturalmente a tendência ao problema da braquicefalia e, esse problema jamais vem sozinho, ou seja, sempre vem acompanhado de inúmeras outras condições igualmente indesejáveis que, de certa maneira, em algum momento dos sucessivos cruzamentos que originaram essa condição, se fizeram presentes e até mesmo fixaram-se na matriz genética do cão.

 

 

Durante o processo de evolução da fixação genética dessa “anomalia”, selecionaram-se sempre cães que possuíam o maxilar inferior do tamanho normal e apenas o superior recuado, por essa razão grande parte dos cães braquicefálicos têm também deformidades nos maxilares e nas mandíbulas, ou seja, passaram então a apresentar prognatismos.

 

Tecnicamente, prognatismo do ponto de vista fisiológico, acontece quando há defasagem no crescimento da maxila em relação ao crescimento da mandíbula.

 

 

Outro problema comum em cães com tal condição, é sofrer com o posicionamento dos dentes.

Como há defasagem entre os maxilares superior e inferior, não raras as vezes os dentes têm menos espaço para crescer em determinado ponto e, por isso podem crescer em ângulos diferentes na boca, o que ajuda no desenvolvimento e proliferação de problemas dentários, já que são mais propensos a juntar restos de alimentos.

 

 

A braquicefalia, não raramente faz com que as aberturas nasais sejam mais estreitas e pequenas, dificultando a respiração, tornando-o mais ofegante e cansado ao se exercitar, pois o fluxo aéreo para o interior da cavidade nasal fica restrito e torna-se necessário um esforço inspiratório maior, causando sempre dispneia leve à intensa.

 

A essa condição denominamos estenose nasal e, em casos mais graves pode até ocorrer intervenção cirúrgica para a tentativa de resolução desse problema em especifico, porém é bom frisar, que essa não é uma condição totalmente reversível e com garantias de sucesso total.

 

 

Por possuírem esses problemas com suas vias aéreas, até mesmo a característica de estar frequentemente ofegante no calor se torna ineficiente em cães que sofrem com a braquicefalia. Um cão normal, quando ofega no calor, faz com que o ar entre mais rapidamente, fazendo a saliva evaporar e diminua a temperatura do sangue que passa pela sua língua, ajudando a manter a temperatura corporal sob controle em dias mais quentes.

Por isso, é muito importante garantir que seu cão esteja sempre dentro do peso ideal e que não seja muito exposto ao calor em dias quentes.

 

Esses animais, em sua maioria, não conseguem regular sua temperatura corporal podendo haver hipertermia e ainda se agravando a sintomatologia em temperaturas ambientais elevadas.

A língua, proporcionalmente comprida e espessa, não tem normalmente espaço suficiente dentro da boca (macroglossia relativa), perfeitamente observável, por exemplo, nos cães da raça Bulldogue Francês. Este aumento das partes moles da faringe desencadeia a constrição das vias de passagem do ar na faringe, o que tem importantes consequências funcionais ao nível da respiração.

 

Praticamente todos os sinais clínicos observados em cães braquicefálicos são explicáveis pela malformação das vias aéreas superiores e consequente insuficiência respiratória. Se observarmos atentamente, os Rottweilers com focinho curto sempre tendem a estar com a boca aberta, ofegantes ao extremo e língua projetada para fora.

Geralmente, esses Rottweilers até podem se mostrar mais belos em determinado referencial sazonal quanto ao fenótipo, mas embora muito ativos e rápidos por um determinado período do dia, cansam-se rapidamente se exercitados e, em dias quentes mostram-se extremamente letárgicos e até mesmo irritados.

 

O grande problema da braquicefalia é que ela é uma “deformação” que paulatinamente parece ir se fixando geneticamente nos Rottweilers por cruzamentos sucessivos e que visam apenas e tão somente uma condição de satisfação humana em determinado momento (modismo, marketing, comércio, etc.) e, enquanto os criadores e também os compradores não levarem a sério todos esses problemas de saúde que podem surgir, a única coisa racional que resta a ser feita é tentar amenizar os efeitos posteriores eventualmente ocasionados por decorrência desse distúrbio, através da promoção de bem estar e qualidade de vida a eles.

Muitas vezes se busca um determinado “padrão de beleza” que se julga fundamental, porém jamais nos esqueçamos que a saúde sempre será essencial e que, a natureza não tem quaisquer compromissos com nossas vaidades e desejos meramente pessoais.

 

Cuidado, um Rottweiler não é um PUG de grandes dimensões (“PUGÃO”) e, sob tal linha de raciocínio, quanto mais nos distanciarmos em relação ao “referencial padrão” natural, mais iremos de encontro à inúmeras situações problemáticas e inusitadas, que sempre trazem sequelas, por mais que não as desejemos.

 

Não esqueçamos que as regras são estabelecidas pela NATUREZA.

 

Os cães que sofrem com a braquicefalia também podem ter problemas com o posicionamento dos seus olhos, que podem parecer esbugalhados e, em alguns casos atrapalhar no escoamento de lágrimas ou até mesmo fazer com que as suas pálpebras não se fechem totalmente.

Embora não seja uma condição característica da raça Rottweiler, a tendência cada vez mais acentuada e frequente ao encurtamento do focinho através dos sucessivos cruzamentos nessa direção, pode até fazer com que alguns animais apresentem prolapso da glândula da terceira pálpebra (Cherry Eyes), situação essa já amplamente caracterizada e frequente em cães das raças Buldogue, Mastin Napolitano, Boxer, dentre outras.

Essa condição não é necessariamente genética, pois diversos fatores podem contribuir para que venha a ocorrer, mas a órbita ocular projetada em relação ao crânio favorece bastante sua ocorrência.

 

No caso especifico dos cães da raça Rottweiler, além de um temperamento equilibrado, destemor e equilíbrio, há de se considerar que tenham, no mínimo, uma característica importante, ou seja, eficiência quando em situação de trabalho para ataque, se eventualmente isso se fizer necessário.

Rottweilers com projeção demasiada de focinho para o interior do crânio, perdem automaticamente a eficiência de mordida, ou seja, lhes falta profundidade de encaixe mandibular.

Em síntese, têm sempre MAIS “partes moles” (língua, etc.) projetadas para a frente por falta de espaço dentro da caixa craniana e MENOS projeção em profundidade da arcada dentária e do conjunto formado pela maxila e pela mandíbula.

Em síntese, perdem potência de mordida e cansam-se rápido por causa da condição respiratória já explicada anteriormente.

A figura ilustra um Rottweiler com um bom encaixe de mordida (“mordida cheia”).

Finalizando, nem tudo são problemas, pois há maneiras técnicas de tentar harmonizar o “padrão dos focinhos” dos Rottweilers de tal maneira a contemplar aspectos relacionados à funcionalidade, à estética e à saúde e bem estar.

Dessa maneira, algumas condições básicas podem ser relacionadas, embora sejam meramente orientativas, se prestam razoavelmente bem para nortear-nos à avaliação da proporção dos focinhos em relação à cabeça.

  • O focinho deve ser largo quando visto de cima e profundo quando visto de perfil.
  • É importante que a mandíbula seja poderosa e a cana nasal seja reta. Mandíbulas fracas ou afinadas são indesejáveis.
  • Visto de perfil, a linha frontal do focinho não pode ser chanfrada. Ela desce quase reta, formando um conjunto poderoso. A relação entre a medida do crânio e do focinho (crânio/focinho) deve situar-se em torno de 1,5 vezes. Valores superiores a esse remetem à tendência de problemas.

 

Aos leitores que pensavam que os “melhores Rottweilers” são aqueles que apresentam focinhos curtos, esperamos que este artigo técnico lhes sirva de referência para tal linha de raciocínio seja norteada para outro rumo.

Muitos problemas associam-se a essa questão, desde aqueles associados à saúde do animal, à sua funcionalidade e também ao seu comportamento, portanto, à luz da ciência,  não há sentido algum em buscar freneticamente a fixação genética dessa característica em um cão que, na grande maioria das vezes tem por finalidade uma condição de trabalho para guarda e proteção.

Nunca devemos nos esquecer que a natureza não tem quaisquer compromissos com as vaidades, os desejos e os anseios dos seres humanos, ou seja, a natureza (por seleção natural e evolução) faz suas próprias regras, estabelecendo seus próprios padrões, sendo sempre melhor sucedidos os seres que melhor se adaptam às adversidades a que são submetidos no decorrer do tempo.

PARA REFLEXÃO!!!

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