A leishmaniose (ou Calazar) é uma doença infecciosa causada por parasitas do gênero leishmania.
O único vetor de transmissão é um pequeno flebotomíneo, um mosquito hematófago do gênero lutzomyia, popularmente chamado de mosquito palha.
Não se trata de uma doença contagiosa entre cães e gatos, ou seja, um animal infectado não irá transmitir de forma direta a doença para outro animal. Para que ocorra a transmissão, o mosquito-palha precisa picar um animal ou um ser humano infectado e levar o agente causador da doença (Leishmania infantum chagasi) para outro animal através de picada.
É dessa maneira que ocorre a transmissão.
Ao sugar o sangue, o mosquito se torna hospedeiro do protozoário e vira um vetor de transmissão. O tempo que um animal picado por um mosquito infectado levará para começar a desenvolver sintomas depende da resposta imune dele.
Geralmente é uma doença de progressão crônica. Pode levar semanas e até anos com o paciente assintomático ou em estado subclínico, com sintomas muito leves.

Os mamíferos, de uma forma geral, são vulneráveis à doença, mas os cães, na região urbana, e as raposas e marsupiais, no ambiente silvestre, são os principais reservatórios e, os que em geral mantêm a doença em determinado ambiente.
Nos animais, é mais comum a manifestação da leishmaniose cutânea, que atinge a pele. Nódulos cutâneos, lesões de pele, crescimento das unhas, queda de pelos e feridas que não cicatrizam, principalmente nas pontas das orelhas, são os sintomas mais clássicos. Um animal com lesões de pele, se não tratado, pode evoluir para o comprometimento dos órgãos.
A forma visceral, que atinge os órgãos internos (sobretudo baço e fígado), é muito mais severa. Nesse caso, os sintomas mais comuns são: apatia, perda progressiva de peso, crescimento de baço e fígado, anemia e dores articulares.
Em humanos, é mais comum a ocorrência da leishmaniose visceral.

Independente dos sintomas apresentados inicialmente, a doença é uma só.
Para fechar o diagnóstico da doença, é necessário ao menos dois exames apontando a infecção (sorologia (ELISA) e imunofluorescência indireta (RIFI)), podendo ainda ser feitos, de forma complementar, a citologia aspirativa de linfonodos por agulha fina ou citobloco de medula óssea para determinação de intensidade parasitária e ainda, biópsia de pele. Existe uma série de testes que podem ser utilizados em casos suspeitos, sendo que alguns fazem pesquisa por antígeno e outros buscam anticorpos.
O primeiro passo após o diagnóstico da doença é iniciar um ciclo de tratamento com medicação adequada e que vise diminuir a carga parasitária no organismo do animal. Isso é o que o fará “perder” a capacidade de infectar.
Por se tratar de uma doença transmissível ao ser humano, caracteriza-se como zoonose e, assim sendo, a medicação a ser adotada para tratamento consta na lista das substâncias sujeitas a controle especial.
Em geral, o tratamento é feito com medicamentos à base de miltefosina e, de acordo com os sintomas apresentados, outras medicações poderão ser associadas. O tratamento inicial, em geral não é inferior a 28 dias e deve ser feito sempre sob orientação e supervisão veterinária.
Antigamente, quando não havia autorização no Brasil para usar tal medicação em animais, era praticamente impossível eliminar os parasitas e, por esse motivo tornavam-se fonte de disseminação dessa doença. Os animais que eram diagnosticados com tal doença eram simplesmente sacrificados.
Com as medicações corretas, hoje é possível dar plena qualidade de vida para os animais infectados. É preciso realizar check-ups regulares e manter a imunidade em dia para evitar oscilações no organismo.
A baixa na imunidade é um fator determinante nesse grupo de animais.
Até 2023 existia uma vacina para os cães, que segundo o próprio fabricante, apresentava 71,3% de eficácia no combate ao desenvolvimento da doença. Embora não apresentasse eficácia plena, já era uma grande evolução na tentativa de evitar a contaminação.
Em maio/2023 o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) determinou a suspensão da fabricação e venda da vacina contra leishmaniose canina no Brasil. Essa decisão ocorreu após a fiscalização constatar desvio de conformidade do produto em diversos lotes analisados, o que poderia ocasionar falta de eficácia da vacina, gerando risco à saúde animal e saúde humana, por se tratar de uma zoonose com alta taxa de letalidade.
Existem quatro estágios classificados de Leishmaniose com base em sinais clínicos e testes de diagnóstico:
- Estágio 1: doença leve com pouca ou nenhuma alteração observada no exame de sangue;
- Estágio 2: doença moderada com anticorpos observados no sangue juntamente com elevações nas proteínas e anemia leve. Os sinais incluem alterações na pele, perda de peso e sangramento do nariz;
- Estágio 3: doença grave com alterações no estágio 2, bem como sinais mais graves, incluindo doença renal, inflamação ocular, linfonodos aumentados e baço aumentado, e;
- Estágio 4: doença extremamente grave com sinais clínicos mais graves, incluindo dificuldade para respirar e exames de sangue consistentes com insuficiência renal.
Há de se observar que alguns sintomas da leishmaniose em cães são comuns à outras doenças, por exemplo a conjuntivite. Não é raro, por exemplo, que alguns tutores tentem tratar inicialmente a doença como uma simples conjuntivite.
Por não possuirmos ainda uma cura parasitológica plena para a leishmaniose canina, evitar a picada do mosquito palha é a melhor forma de combater este mal.
A melhor estratégia é proteger o cão “por fora”, através de um repelente tópico capaz de evitar a picada do flebótomo infectado e vetor transmissor da doença, ou adotar uma coleira repelente ectoparasiticida do tipo Scalibor®, Seresto®, Leevre®, ou outra semelhante. Essa proteção externa, forma um escudo protetor, que ajuda bastante a ampliar a proteção do animal.

Dependendo da região do Brasil, esse mosquito recebe determinada denominação. Mosquito Palha, Tatuquira, Birigui, Furrupa, Arrupiado e Pela Égua são algumas das denominações populares desse inseto.
Outra maneira de prevenção contra o mosquito palha é não promover condições para que o mesmo se aloje e procrie.
Esse inseto é mais encontrado em lugares úmidos, escuros e onde existem muitas plantas. Desenvolvem-se em locais úmidos, sombreados e ricos em matéria orgânica (folhas, frutos, fezes de animais e outros entulhos que favoreçam a umidade do solo). Vivem ao redor de habitações humanas onde encontram determinadas condições favoráveis à sua reprodução e desenvolvimento.
Ao contrário de outras espécies de mosquitos e pernilongos, esses insetos não necessitam de fontes de água parada para sua reprodução. As fêmeas dessa espécie depositam seus ovos em substratos ricos em matérias orgânicas e preferem temperatura e umidade elevadas.
Seu desenvolvimento é dividido em quatro fases biológicas, a saber: ovos; larvas (quatro estágios); pupas e adultos. As larvas alimentam-se de matéria orgânica depositada no solo e os adultos se alimentam de derivados de açúcares que são retirados dos néctares de frutos e flores e seivas de plantas.
Os insetos adultos preferem alimentar-se preponderantemente no crepúsculo ou à noite, mantendo-se em repouso durante o dia, protegendo-se de predadores, ao abrigo de correntes de vento e de insolação. Assim sendo, escondem-se durante o dia em todo tipo de locais que lhes proporcionam tais condições, tais como rachaduras de paredes, cavernas, reentrâncias de rochas, fendas em troncos de árvores, enfim, todo tipo de esconderijos que puderem localizar que lhes proporcionem condições de abrigo, segurança e conforto.

Como já comentado anteriormente, os sinais clínicos da forma cutânea mais comuns incluem espessamento e endurecimento dos tecidos das orelhas, do focinho e das patas (hiperqueratose). Muitos cães perderão o pigmento ou a coloração escura desses tecidos à medida que a doença progride, além disso, também são bastante comuns de serem observados nódulos e caroços pelo corpo, que seriam inflamações dos gânglios linfáticos (conhecidas popularmente como “ínguas”), feridas na pele, nas orelhas e no focinho que parecem nunca se curarem, hemorragias nasais, queda de pelos e descamação da pele, dentre outros.

FOTO 1 – Disqueratinização (seborreia) em ponta de orelha (dermatose marginal).
FOTO 2 – Hiperqueratose (espessamento da parte mais externa da epiderme) nasal.
FOTO 3 – Área de alopecia (queda de pelos) com presença de disqueratinização furfurácea, crostas hemáticas, eritema e lignificação local.
Em síntese, algum sucesso no tratamento da leishmaniose canina estará sempre diretamente relacionado ao momento do diagnóstico, ou seja, quanto mais precoce for feito o diagnóstico corretamente, maior a probabilidade de uma “cura clínica”.
Há de se observar que, em se tratando de leishmaniose, deve-se ter sempre em mente que o tratamento a ser considerado será sempre o de uma “cura clínica”, não o de uma “cura parasitológica”, ou seja, o animal jamais terá uma condição, de forma instantânea, de apresentar um quadro de zero parasita circulante no organismo, mas certamente terá a chance de viver por anos de forma saudável, mesmo que ainda apresente no parasitológico ou no PCR Real Time Quantitativo alguma forma amastigota (células arredondadas de protozoários sem flagelos) circulante.
O importante será monitorar o tratamento de forma rigorosa (clínico e laboratorial) durante toda a vida do paciente.
A LEISHMANIOSE É PERIGOSA, NÃO TEM CURA, É LETAL E TRATA-SE DE UMA ZOONOSE!
A MELHOR E MAIS EFICAZ MANEIRA DE LIDAR COM ESSA DOENÇA É A PREVENÇÃO
PORTANTO, CUIDE BEM DO SEU CÃO PARA NÃO TER QUE TRATÁ-LO DEPOIS!
NÃO SE TRATA DE UMA DOENÇA QUE DEVA SER SUBESTIMADA!
FICA A DICA!!!

