Publicamos recentemente um artigo técnico intitulado “Educar, adestrar e/ou treinar – Entenda as diferenças”, onde estabelecemos as diferenças entre cada um desses estágios na instrução de um cão ao longo de sua vida. Há de se considerar, no entanto que, não raras as vezes, tem se observado uma deturpação de conceitos que, podem resultar em problemas sérios em determinado momento.
Há algum tempo, vem surgindo no mundo todo uma nova tendência entre os especialistas em comportamento canino e animal, em geral. Diferente do que muitos pensavam e defendiam anteriormente, hoje não se difunde mais tanto a ideia de adestrar os cães de estimação, mas sim de educá-los de acordo com as necessidades de seus proprietários. Estabelece-se automaticamente um novo conceito, ou seja, que possuir um cão educado é muito mais interessante que possuir um cão adestrado.
Levando em consideração que adestrar significa ensinar, tornar capaz, exercitar, instruir e educar é sinônimo de explorar a inteligência para formar traços de comportamento e caráter, podemos notar que a educação vai muito além de uma resposta condicionada.
É importante que os cães aprendam, desde pequenos, algumas regras simples, como respeitar o espaço das pessoas quando elas comem, descansam ou estão ocupadas, controlar impulsos como correr para a porta quando a campainha toca, pular nas pessoas ou latir para estímulos diversos e saber esperar para se alimentar na hora e no local corretos.

Existem inúmeras nuances em que se pode identificar um comportamento mais impulsivo dos cães e todas são oportunidades para se trabalhar e moldar esse comportamento, sempre deixando claro o que é certo e o que é errado. É aí que tudo começa, com a nossa presença intervindo nessas situações de forma clara para que os cães aprendam quais são as regras de convivência.
A isso denomina-se educação básica, e o eventual e posterior adestramento e/ou treinamento não se resumirão apenas à prática de determinados comandos, mas ao uso de determinadas habilidades no cotidiano que criarão o cão com o comportamento ideal e desejável.
De modo geral, um cão educado sabe não apenas responder ao que lhe é pedido numa fase posterior quando em processo de adestramento e/ou treinamento, mas acima de tudo, sabe como viver bem em sociedade, mostrando nas mais variadas situações que pode se portar de maneira satisfatória, sem apresentar comportamentos destrutivos ou constrangedores.
Não se deve confundir aqui, um cão simplesmente mal-educado, que pula nas pessoas, que rosna sem motivo aparente, que late desordenadamente, que destrói todo tipo de objetos ao seu redor, que puxa a guia do seu condutor quando sai para passear, em síntese, aquele que proporciona inúmeras situações que, embora até tragam diversos incômodos, não estão associadas diretamente a um possível perigo iminente.
Para essas situações meramente comportamentais, atualmente existem profissionais especializados em “adestramento comportamental” e que, proporcionam trabalhos sérios e com resultados satisfatórios.
Nosso assunto aqui neste artigo técnico está associado a cães que já passaram desse estágio e não foram corrigidos adequadamente, tornando-se potencialmente perigosos.

Um cão com boa educação é bem mais favorável do que um cão adestrado, simplesmente por ele e seus donos se entenderem melhor e um conseguir respeitar os limites do outro.
Educadores realmente responsáveis não costumam tratar todos os cães de uma forma única e padrão, aplicando as mesmas técnicas em todos os animais, mas analisando caso a caso e posteriormente aplicando os princípios que julgam necessários para que cada cão e cada dono não se frustrem no futuro.
Cabe registrar que, assim como os seres humanos, cada cão se comporta de um jeito individual e muito particular e possui necessidades diferentes. Ao analisar por quais motivos um cão apresenta determinada reação, o educador de cães realmente responsável sabe exatamente como intervir e ajudar para que o animal e seu dono entrem em harmonia definitivamente.

É cada vez mais comum que alguns proprietários de cães (principalmente de cães de grande porte e destinados à guarda e proteção) se queixem de problemas extremamente fáceis de resolver e que, na grande maioria das vezes estão totalmente associados à educação e não ao adestramento.
Muitas pessoas ao adquirirem um filhote de cão de guarda imediatamente perguntam quando se pode começar a “adestrá-lo”. Outros, de forma quase sempre ansiosa perguntam, quando esse filhote estará “pronto” e em condições de efetuar guarda pessoal e/ou patrimonial.
A resposta sincera e sensata a tais questões, em princípio não é tão simples quanto parece.

Conforme já registrado anteriormente no artigo técnico intitulado “Educar, adestrar e/ou treinar – Entenda as diferenças”, cães são animais instintivos e naturalmente inclinados ao convívio em grupos, mas essa combinação só funciona de forma efetiva quando existe um membro de referência no contexto que define as regras do grupo em situações e cenários diferentes, ou seja, que lhes educa desde pequenos.
Quando esse líder não existe, os cães naturalmente tomam essa posição e passam a definir as regras do seu jeito. Liderança é um fator essencial para qualquer estrutura social, é daí que vêm as regras, a orientação, a educação e a criação de hábitos.
Sob tal contexto, há de se observar que quando trazemos cães para o nosso convívio, precisamos deixar claro como essa convivência deve acontecer, caso contrário, tenderemos a ficar reféns deles e dos seus instintos mais primitivos, o que tornará doravante tudo bem mais complicado.
No caso de cães de guarda de grande porte, deve-se tomar muito cuidado para não se estimular a agressividade em idade precoce, pois com o tempo ele irá demonstrar suas habilidades como cão de guarda, sem que se precise estimulá-lo demasiadamente a isso.
Jamais confunda agressividade com valentia, pois um filhote muito agressivo geralmente esconde dentro de si um cão medroso, que se bem trabalhado pode se tornar um excelente cão de guarda quando ficar adulto.
À medida que o cão cresce, automaticamente sua personalidade e caráter vão também se formando e, torna-se importante e imprescindível que durante toda essa fase haja um referencial para ele, ou seja, um líder que ele admire e respeite.
Reiterando mais uma vez que, quando esse referencial de liderança não existe, os cães naturalmente tomam essa posição e passam a definir as regras do seu jeito, o que quase sempre é norteado pelo instinto natural da espécie e não por regras da sociedade humana.
Eis então que os problemas começam, pois em geral, esses cães sem “educação básica”, mordem, latem, rosnam, atacam e, enfim, agem naturalmente como se fossem os “líderes” de determinado espaço e de todos que se encontram em seu entorno, quer sejam pessoas ou outros animais, tornando-se instáveis e imprevisíveis.
No caso específico de cães de grande porte e destinados à guarda e proteção, tornam-se perigosos e verdadeiras armas prestes a serem disparadas a esmo, sem rumo.
Numa situação assim, geralmente os proprietários pensam em três opções, a saber: o abandono, a doação do animal ou a contratação de um profissional visando o “pseudo adestramento(?)”.
Nesse último contexto há um enorme equívoco de ambas as partes, pois um cão nessas condições jamais será adestrado adequadamente, uma vez que não apresenta o requisito básico e essencial para que tal atividade seja bem-sucedida, ou seja, a educação básica, que resultará no comportamento estável, proporcionando-lhe o equilíbrio em uma situação de pressão.
De nada adiantará contratar um profissional para “adestrar” determinado cão totalmente instável e arredio, se este não tiver o mínimo de educação básica e, a maior parcela de responsabilidade de um cão não ser educado é, em geral dos proprietários e não de qualquer profissional, por mais competente que até possa ser, pois quem fica a maior parte do tempo convivendo com o cão é o proprietário e não o profissional contratado.
Muitas vezes se faz necessário “educar primeiramente os proprietários” para somente depois se tentar fazer algum trabalho com os cães.
Jamais confunda educação com adestramento.
São situações totalmente distintas, mas cujo resultado satisfatório ou não estará sempre interligado.

E porque então “determinados profissionais que se dizem instrutores ou adestradores” simplesmente ignoram tal condição básica e natural e procuram condicionar os proprietários a fazer com que os “resultados almejados” sejam rapidamente obtidos?
A resposta a essa pergunta tem várias premissas que podem ser consideradas, desde falta de bom senso, conhecimento e, até mesmo, algumas vezes, incompetência e/ou mal caratismo por parte do profissional que se predispõe ao adestramento, associadas ao desconhecimento, ansiedade, falta de tempo disponível para acompanhamento e predisposição de gastar pouco recurso financeiro por parte do proprietário do animal.
Voltando ao nosso tema principal objeto deste artigo técnico, numa situação como esta, onde o cão em desenvolvimento ou já adulto simplesmente não tem qualquer educação básica comportamental, há de se considerar a necessidade de reverter essa condição a um determinado ponto onde se possa começar a educá-lo, para, somente a partir de então, tentar adestrá-lo adequadamente.
Nesse contexto, inúmeras técnicas que têm sido observadas e erroneamente praticadas por diversos pseudo profissionais não se enquadram em absolutamente nada naquilo que se denomina adestramento, ou seja, oferecem ao proprietário do animal um determinado adestramento e entregam na prática outra coisa, ou seja, a doma tradicional.
Em síntese e resumidamente do ponto de vista exclusivamente técnico temos:
Doma tradicional (“pressão”): Submeter algo ou alguém a cumprir ordens, submeter à autoridade, refrear, reprimir, subjugar, oprimir, vencer, amansar, reduzir à obediência, submetendo-o pela força bruta ou à custa de exercícios e/ou equipamentos de contenção (focinheiras, cambões, enforcadores, etc.). Submeter o cão, sobrecarregando-o com imposições ou restrições geralmente contra sua vontade, através de força, autoridade ou poder. O cão literalmente se entrega através da dor do medo ou da pressão a que é submetido no processo. A ideia é justamente “quebrar” o ímpeto e o moral do animal subjugando-o.
Adestrar (“ensinamento preliminar”): Tornar capaz, exercitar, instruir, ensinar tornar hábil para realizar determinadas ações, tais como: sentar, levantar, deitar, ficar, soltar, rolar, buscar objetos, dar a pata, etc. Corresponde por analogia, à fase escolar humana do ensino básico.
Treinar (“profissionalizante”): Exercitar, realizar de modo regular certas atividades mais específicas ou trabalhos, tais como: rastrear ou farejar (Ex: entorpecentes, explosivos, cadáveres), resgates, guarda e proteção, agility, guia de cegos. Por analogia, pode-se dizer que corresponde à fase escolar humana do ensino superior ou profissionalizante.
Inúmeros vídeos postados na Internet apresentam técnicas adotadas para contenção e amansamento de cães que apresentam traços bastante evidentes de ferocidade, técnicas essas que na verdade não estão associadas à adestramento e sim à doma e, pior ainda, a técnicas de doma tradicionais e que já se encontram obsoletas e em desuso em grande parte do mundo, até mesmo porque, em determinadas circunstâncias caracterizam maus tratos aos animais.
Tais profissionais, na realidade oferecem um trabalho de adestramento aos proprietários do cão e, o trabalho executado nada mais que que a doma tradicional.
Um cão “trabalhado” dessa maneira, certamente não estará adestrado e sim oprimido e, o resultado final disso certamente será um cão cheio de vícios, medos, traumas, e os resultados serão sempre o que denominamos “falso positivos”, ou seja, embora o “resultado almejado” até possa estar aparentemente cumprido no início, o cão certamente em determinado momento no futuro esboçará alguma reação negativa, e que não raras as vezes pode trazer consequências graves.
Em síntese, o animal se transforma em um verdadeiro caldeirão de pólvora, uma “bomba armada” prestes a explodir a qualquer momento e sem prévio aviso, bastando apenas de determinado “gatilho” para que isso ocorra.
Se a opção escolhida a ser adotada for pela prática de algum método de doma, há de se considerar que atualmente existem métodos mais modernos e amplamente utilizados por treinadores de cavalos e que, respeitam o bem-estar e a saúde dos animais.
Uma delas é a doma racional (também é denominada de “manejo natural” “doma progressiva”, “doma psicológica”, “doma etológica”), onde o domador busca conquistar o animal com carinho e atenção, respeitando seus limites e diminuindo seu estresse.Nesta técnica, o animal é levado a determinado espaço aberto e o domador começa fazendo a aproximação com o animal para que se acostume com sua presença e com a nova rotina.
Outra técnica de doma muito eficaz é a doma índia ou doma indiana, que consiste basicamente na confiança e na comunicação com o cão, onde homem e animal conseguem ser um só, estabelecendo uma conexão, que resulta em uma relação harmoniosa entre dois seres totalmente diferentes.

Resumidamente, a sensibilidade é a base do sucesso de qualquer educador (adestrador e/ou treinador). A arte de educar (adestrar ou treinar) um cão ou até mesmo qualquer outro animal deve ter por princípios básicos e fundamentais a educação e o respeito mútuo.
Educar não é sinônimo de controlar.
Trata-se de procurar estabelecer vínculos de amizade, confiança e comunicação entre as partes, entre o educador (adestrador ou treinador) e o educando (cão). Controlar é domar de forma tradicional e não adestrar.
Se a intenção for promover disputas, o animal disputará instintivamente.
Se a intenção é educar, certamente o animal aprenderá e, finalmente se a intenção for sobrepor-se por imposição de força e coação, fique certo que a qualquer instante o animal responderá na mesma intensidade e, nesse instante começarão os problemas.
Deve-se sempre procurar corrigir, porém jamais agredir.
O processo deve ser sempre sem dor ou humilhações de qualquer forma ou por qualquer motivo, objetivando que o cão sempre sinta prazer em estar junto com o educador e não obrigação ou imposição.
Lembre-se sempre que o cão deve ser tratado como aliado e nunca como um subordinado, como um parceiro e não um subalterno ou mesmo um “escravo”.
Em síntese, qualquer animal criado em um ambiente negativo, que se sente ameaçado ou maltratado, poderá reagir bruscamente e de forma igualmente negativa para se defender.
Por isso, é injusto rotular algumas raças como potencialmente perigosas, quando, na verdade, o perigo reside na má educação proporcionada aos cães desde sua fase juvenil, pelos próprios seres humanos.
JAMAIS CONFUNADA DOMA TRADICIONAL COM ADESTRAMENTO. CUIDADO!!!
ENQUANTO A DOMA TRADICIONAL OPRIME, O ADESTRAMENTO ENSINA.

