Piometra tem cura???

Piometra tem cura???

Iniciamos este artigo técnico sem intuito algum de gerar qualquer polemica sobre o assunto, apenas e tão somente objetivando apresentar o relato de um caso onde o tratamento adotado obteve sucesso na cura de uma doença muito séria e que, se não tratada rápida e eficazmente, leva o animal ao óbito.

Há de se considerar sempre que, não existe nenhuma doença incurável, porém o sucesso ou insucesso na eficácia de determinado tratamento para qualquer enfermidade, estará sempre associado a acompanhamento regular preventivo da saúde do animal, diagnose correta no início, velocidade ao se iniciar o tratamento após a diagnose e predisposição em fazê-lo (quer seja de dedicação pessoal ou financeira).

Dizer que há doenças mais severas preocupantes que outras é fato, porém dizer que não têm cura não necessariamente se constitui verdade absoluta.

Falemos aqui sobre a piometra que, é o nome mais comum que se dá as afecções uterinas causadas pelo crescimento excessivo do endométrio (camada interna do útero) acompanhadas de infecção bacteriana. Também denominada complexo hiperplasia cística endometrial, geralmente caracteriza-se pelo acúmulo de muco ou pus no interior do útero, provocando dor e outros sinais clínicos de acordo com a gravidade.

Em síntese, a piometra é causada por bactérias que habitam a região próxima à vagina. Elas ascendem para o útero através da cérvix, que fica um pouco dilatada na época do proestro e cio.

Entre essas bactérias, a Escherichia coli é comumente encontrada na flora vaginal normal e na maioria dos casos de piometra em cadelas. Em geral, a infecção uterina em quadro de piometra é tão intensa que o tratamento com antibióticos pode não ser suficiente.

Por isso, na grande maioria dos casos, faz-se necessário o procedimento cirúrgico para retirada do útero. A cirurgia é sempre considerada de emergência, principalmente nos casos de piometra fechada, pois o útero pode se romper.

Se identificada no início, a piometra pode ser tratada com antibióticos e drenagem uterina, especialmente se a fêmea possuir um alto valor reprodutivo. O problema crucial é que nem sempre o tratamento medicamentoso pode ser suficiente para rever o quadro.

 

A piometra classifica-se em dois tipos: aberta e fechada. A piometra aberta acontece quando a cérvix (colo do útero) está aberta e a secreção acumulada extravasa pelo canal vaginal. Quando a cérvix está fechada, diz-se que é um caso de piometra fechada, isto é, o líquido fica todo preso no interior do útero.

A cérvix atua como barreira (semelhante a uma válvula), evitando a entrada de micro-organismos e produtos exógenos, dilatando-se no momento do parto.

Esse órgão, por sua vez, tem como função dilatar-se no cio, se adaptando ao pênis do macho e, na maioria das espécies, é a cérvix o local de deposição e reserva do ejaculado.

O seguinte órgão, o útero, é constituído por uma parede relativamente espessa e composto pelo Endométrio, Miométrio e Perimétrio. É no útero que se desenvolve a gestação.

 

Em casos de piometra aberta, é possível observar descarga vaginal sanguinolenta ou mucopurulenta. Já em casos de piometra fechada, a fêmea geralmente fica mais debilitada em comparação a cadelas diagnosticadas com piometra aberta, devido a septicemia causada pelas endotoxinas das bactérias liberadas na corrente sanguínea.

Essa proliferação de bactérias normalmente acomete cadelas com idade avançada, fato que ocorre em decorrência do relaxamento normal do músculo da cérvix durante o período de estro ao longo de sua vida.,

Há de se considerar, no entanto, que a drenagem do muco do útero das cadelas não é muito simples, pois a anatomia dos quadrúpedes difere substancialmente da anatomia dos bípedes e, por esse aspecto, torna-se mais complexo o procedimento de drenagem de qualquer fluido (liquido ou muco) proveniente da região uterina nos quadrupedes se comparado aos bípedes.

Em síntese e de forma simplificada, enquanto nos bípedes o útero se encontra verticalizado, nos quadrupedes encontra-se horizontalizado, o que dificulta o escoamento por gravidade desses fluidos. Sob tal aspecto, há de se pressupor que sempre haverá a possibilidade de que algum resíduo contaminado desses fluidos possa permanecer no interior do útero das cadelas mesmo após um tratamento rigoroso, o que, em tese, pode proporcionar a recidiva da doença futuramente.

Assim sendo, há de se ter em mente que além do tratamento (caso se opte em fazê-lo), se faz importante o acompanhamento futuro através de exames regulares (preferencialmente quinzenais), até que se certifique que houve a estabilização do quadro.

Tais exames contemplam ultrassonografias, hemogramas e acompanhamento bioquímico das funções renais e hepáticas, pois tanto os rins quanto o fígado são bastante sobrecarregados em qualquer tratamento à base de antibióticos e, os rins em particular, podem sofrer infecções em decorrência da piometra por causa de sua proximidade anatômica com a região uterina.

Na sequência, descreveremos em detalhes, um caso bem-sucedido de cura de piometra ocorrido em uma cadela do plantel do nosso canil e que, talvez possa servir de referência e estimular proprietários e até mesmo alguns criadores quanto à tomada de decisão, em casos semelhantes.

Há de se deixar registrado que não é nossa intenção incentivar ou desestimular este ou aquele procedimento, pois que, caberá sempre a cada um adotar o procedimento que julgar mais adequado em conformidade com cada situação em especifico.

Cabe-nos apenas apresentar um determinado caso, onde optamos pelo tratamento objetivando a cura, mesmo sem prévias garantias de qualquer sucesso.

A cadela em questão trata-se de uma Rottweiler com 4,5 anos de idade e 48 kg de massa corporal, diagnosticada em 24/04/2024 com hiperplasia endometrial cística associada à hemo / muco / piometra, através de exame ultrassonográfico. Suscintamente constam a seguintes informações mais relevantes sobre o tema abordado, no respectivo laudo ultrassonográfico.

 

 

ÚTERO: De dimensões aumentadas, medindo até aproximadamente 4,29 cm de diâmetro em região de corno uterino, com conteúdo intraluminal anecogênico/líquido de moderada celularidade. Presença de estruturas anecogênicas em parede de lúmen, medindo até aproximadamente 1,26 cm de diâmetro (cistos). Imagem sugestiva de hiperplasia endometrial cística associada à hemo/muco/piometra.

 

 

OVÁRIO DIREITO: De dimensões aumentadas e hipoecogênico, medindo aproximadamente 2,01 cm em seu maior eixo (Sugestivo de proximidade ao estro).

OVÁRIO ESQUERDO: De dimensões aumentadas e hipoecogênico, medindo aproximadamente 2,15 cm em seu maior eixo (Sugestivo de proximidade ao estro). Presença de estruturas anecogênicas produzindo reforço acústico posterior, arredondadas, medindo aproximadamente 0,99 cm de diâmetro (sugestiva de cistos / folículos ovarianos).

 

RIM DIREITO: Dimensões dentro da normalidade, margens regulares, delimitação córtico-medular preservada e ecogenicidade da cortical mantida. (Rim direito mediu: 7,75 cm de comprimento em corte longitudinal).

RIM ESQUERDO: Dimensões dentro da normalidade, margens regulares, delimitação córtico-medular preservada e ecogenicidade da cortical mantida. (Rim esquerdo mediu: 7,83 cm de comprimento em corte longitudinal).

IMPRESSÃO DIAGNÓSTICA: Hiperplasia endometrial cística associada à hemo / muco / piometra.

 

Exames de sangue rotineiros efetuados dias antes do referido diagnóstico ultrassonográfico, apresentaram os seguintes parâmetros básicos mais relevantes no caso em questão:

 

Vale salientar que em casos assim, a velocidade com que se inicia qualquer tipo de intervenção, seja por tratamento à base de remédios, seja por intervenção cirúrgica é fundamental (ovariosalpingohisterectomia).

No caso em questão, optou-se pelo tratamento, o qual teve início no dia posterior à diagnose e, basicamente consistiu na administração de alguns antibióticos (Aglepristone (Alizin®); Enrofloxacino injetável 10% e Amoxicilina tri-hidratada injetável).

O Aglepristone (Alizin®) foi aplicado nos dias 1º, 2º, 8º e 15º após a diagnose e início do tratamento, totalizando 4 aplicações. Como foram adquiridos dois frascos com 10ml cada, posteriormente foi aplicada mais uma dose de reforço de 3,5ml no 30º dia após início do tratamento. Para cadelas há recomendação que se aplique 0,33 mL/kg (16,5 ml no caso em questão). Em dias intercalados, foram usados o Enrofloxacino injetável 10% a razão de 1 ml/kg a cada 24 horas (2,5ml no caso em questão) e, a Amoxicilina tri-hidratada injetável a cada 48 horas à razão de 1ml para cada 10kg de peso do animal (5ml no caso em questão). Paralelamente a esse tratamento à base de antibióticos, foram também fornecidos medicamentos antieméticos tais como o Vonau e o Omeprazol, além de estimulantes de apetite tais como o Cobavital e o Beritin.

 

Após iniciado o tratamento, no 3º dia começou a se observar a expulsão pela vagina, de grande quantidade de muco, o qual não apresentava coloração escura nem mesmo odor fétido, o que, em tese, pareceu um bom sinal. Essa expulsão de fluidos internos prosseguiu diariamente até o 12º dia, quando então parou.

Há de se registrar que diariamente se fez a higienização e assepsia de toda a região pubiana da cadela, particularmente da vulva, no intuito de impedir a invasão de germes patogênicos no organismo, visando-se prevenir eventuais infecções oportunistas. Esse procedimento foi feito por três vezes ao dia.

 

Uma condição que certamente auxiliou de alguma forma o bom desempenho do tratamento, principalmente no que tange à facilitação da expulsão por gravidade dos fluidos do interior do útero (haja vista o desfavorecimento anatômico das cadelas quanto a esse aspecto), foi a exercitação diária da cadela por pelo menos duas vezes ao dia (10 a 15 minutos por vez), de tal forma a promover condições de verticalização e movimentação do útero em relação a um referencial horizontal.

 

Em síntese, a ideia seria promover determinadas condições de exercitação para que um quadrupede apresente por determinados momentos, características anatômicas semelhantes à um bípede quanto à maneira de movimenta-se. Trata-se de um procedimento que, embora possa parecer trabalhoso, tem bastante eficiência no que tange à expulsão dos fluidos infeccionados ou não do interior do útero, e, por consequência, na rápida recuperação do animal. A figura ao lado busca ilustrar o que foi comentado.

Antes de continuarmos com o desfecho deste caso, há de se registrar que os principais fatores que influenciam o desenvolvimento da piometra incluem:

  • Idade: Cadelas mais velhas são mais suscetíveis.
  • Histórico Reprodutivo: Cadelas que nunca foram cruzadas ou que passaram por múltiplos ciclos de cio sem acasalar têm maior risco.
  • Uso de Hormônios: O uso de anticoncepcionais hormonais, hormônios para hiperovular ou para tratamento de cisto ovariano pode aumentar o risco.
  • Fatores Genéticos: Certas raças são mais predispostas geneticamente.
  • Alimentação: Alimentação com alto teor de carboidratos.

 

Também se faz necessário esclarecer quais são as principais diferenças fisiológicas entre Piometra, Hemometra, Hidrometra e Mucometra, uma vez que no caso em questão, a impressão diagnóstica do exame ultrassonográfico preliminar sugeriu tratar-se de uma hiperplasia endometrial cística associada à hemo / muco / piometra.

A piometra é uma infecção uterina grave que afeta cadelas não castradas, caracterizada pela acumulação de pus no útero. O acúmulo de pus leva a uma resposta inflamatória intensa, podendo resultar em uma infecção sistêmica grave se não tratada. Ocorre geralmente durante a fase diestro do ciclo estral, quando os níveis de progesterona são elevados. Este hormônio causa alterações no útero, como o aumento da secreção glandular e a supressão da resposta imune, facilitando a colonização bacteriana. A bactéria mais comumente envolvida é a Escherichia coli.

Hemometra é a acumulação de sangue dentro do útero, que pode ocorrer devido a várias causas, incluindo traumas uterinos, distúrbios da coagulação, neoplasias ou complicações pós-parto. A presença de sangue pode predispor a infecções secundárias, mas não envolve necessariamente uma infecção ativa como na piometra. Os principais sinais clínicos são: Sangramento vaginal, dor abdominal, distensão abdominal, sinais de anemia se o sangramento for significativo.

Hidrometra é a acumulação de fluido seroso (não inflamatório) dentro do útero, frequentemente associada à hiperplasia endometrial cística (HEC), que é uma condição em que o revestimento do útero desenvolve cistos preenchidos com fluido. Pode ser causada por estimulação hormonal prolongada (especialmente progesterona) sem a ocorrência de gestação. Os Principais sinais clínicos são: Distensão abdominal, podendo ser assintomática. Em alguns casos, pode haver secreção vaginal aquosa.

Mucometra é a acumulação de muco dentro do útero. Assim como a hidrometra, a mucometra está frequentemente associada à hiperplasia endometrial cística (HEC). O muco acumulado é resultado da secreção excessiva das glândulas endometriais sob a influência prolongada da progesterona. Os principais sinais clínicos são: A distensão abdominal é o sinal mais comum, e pode haver secreção vaginal mucosa em casos de mucometra aberta.

Voltando ao caso objeto deste relato, vale registrar que foram feitos exames regulares completos de sangue e ultrassonográficos para acompanhamento da evolução do tratamento.

Tais exames posteriores foram feitos nas datas: 29/05; 09/06; 19/06; 18/07, 07/08 e 08/08.

A ideia seria acompanhar regularmente a evolução do tratamento proposto tendo por referência os parâmetros obtidos nesses exames, monitorando-o com muita atenção e critério técnico, até que, em determinado momento todos estivessem regulares e, por consequência se pudesse concluir que a cadela estivesse curada ou, se eventualmente o quadro clínico evoluísse para uma piora, em tempo hábil e sem qualquer risco ao animal, se optasse pelo procedimento cirúrgico emergencial (ovariosalpingohisterectomia).

 

No caso em questão, o sucesso no tratamento efetuado foi obtido em aproximadamente dois meses e meio (diagnose em 29/05 a exame final em 08/08), período relativamente curto considerando-se a complexidade e gravidade do problema.

Os últimos exames efetuados (08/08) apresentaram basicamente os parâmetros e considerações a seguir apresentados.

Suscintamente constam a seguintes informações mais relevantes e especificas sobre o tema aqui abordado, no laudo ultrassonográfico efetuado em 07/08/2024:

 

ÚTERO: De dimensões normais, medindo aproximadamente 1,22 cm de diâmetro em região de corpo uterino.

 

OVÁRIO DIREITO: De dimensões aumentadas e hipoecogênico, medindo aproximadamente 1,89 cm em seu maior eixo (Sugestivo de proximidade ao estro).

 OVÁRIO ESQUERDO: De dimensões aumentadas e hipoecogênico, medindo aproximadamente 2,00 cm em seu maior eixo (Sugestivo de proximidade ao estro). Presença de estruturas anecogênicas produzindo reforço acústico posterior, arredondadas, medindo aproximadamente 0,59 cm de diâmetro sugestiva de cistos/folículos ovarianos. (Diferencial para cistos ovarianos se maiores de 3,0 cm).

 

 RIM DIREITO: Dimensões normais, margens regulares, delimitação córtico-medular preservada e ecogenicidade da cortical mantida. (Mediu: 8,25 cm de comprimento em corte longitudinal).

RIM ESQUERDO: Dimensões normais, margens regulares, delimitação córtico-medular preservada e ecogenicidade da cortical mantida. (Mediu: 7,61 cm de comprimento em corte longitudinal).

IMPRESSÃO DIAGNÓSTICA: Ovários levemente aumentados de tamanho e com presença de folículos ovarianos podendo sugerir proximidade ao estro.

 

Quanto aos exames de sangue efetuados em 08/08/2024, apresentaram os seguintes parâmetros básicos mais relevantes e específicos ao caso em questão:

Este artigo técnico relata um caso de tratamento bem-sucedido de hiperplasia endometrial cística associada à hemo / muco / piometra. Trata-se de um caso onde optou-se por buscar o tratamento de uma enfermidade grave e bastante severa, imediatamente após ocorrido o diagnóstico, porém de tal maneira a monitorar o estado de saúde do animal à medida que o tratamento evoluísse, até que, em determinado momento todos os parâmetros clínicos do animal estivessem regulares e, por consequência se pudesse concluir que o mesmo estivesse curado ou, se eventualmente o quadro clínico evoluísse para um agravamento, em tempo hábil e sem qualquer risco ao animal, se optasse pelo procedimento cirúrgico emergencial (ovariosalpingohisterectomia).

No caso em questão, houve sucesso quanto ao tratamento proposto e adotado e, todos os procedimentos se encontram aqui devidamente embasados e registrados para que, eventualmente possam servir de referência para outros casos semelhantes.

O Canil Rottwunder gostaria de agradecer imensamente à toda a equipe da Hemovet Laboratório e Centro de Hemoterapia Veterinária, à Médica Radiologista Veterinária Drª Fernanda Rezende (CRMV/SP 21.378) e à Médica Veterinária Drª Elisa de Almeida Gonçalves (CRMV/SP 39.742) pelo suporte técnico, pela parceria longeva, pelo carinho e responsabilidade com que têm tratado os nossos cães a muito tempo, sem os quais certamente o sucesso quanto à resolução deste caso em especifico não seria possível.

A todos esses profissionais, nosso mais sincero e profundo agradecimento.

Como lição a ser tirada deste caso, há de se considerar que a prevenção e o acompanhamento regular da saúde dos nossos cães são sempre aconselháveis e muito mais eficazes e menos onerosos que a busca de cura para eventual enfermidade já manifestada, o que, muitas vezes se torna mais difícil, ou até mesmo impossível de ser solucionada.

Conforme já dito anteriormente, há de se frisar que não existe nenhuma doença incurável, porém o sucesso ou insucesso na eficácia de determinado tratamento para qualquer enfermidade, estará sempre associado a acompanhamento regular preventivo da saúde do animal, diagnose correta no início, velocidade ao se iniciar o tratamento após a diagnose e predisposição em fazê-lo (quer seja de dedicação pessoal ou financeira). Dizer que há doenças mais severas preocupantes que outras é fato, porém dizer que não têm cura não necessariamente se constitui verdade absoluta.

QUEM AMA CUIDA E, CRIAR É PRESERVAR.

FICA A DICA!!!

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