Passemos a discutir neste artigo, um assunto que, de certa maneira relaciona-se ao tão falado, exaustivamente comentado e esmiuçado, conceito de “padrão”.
Quando estabelecemos parâmetros de “qualidade ou padrão” para definir o que é “bom ou ruim” em conformidade com interesses e conceitos meramente subjetivos e associados às necessidades humanas, não podemos nos esquecer que a natureza não tem qualquer compromisso com quaisquer regras matemáticas ou conceitos de padrões estabelecidos pelos seres humanos conforme seu entendimento e em obediência aos seus próprios interesses.
A natureza faz suas próprias regras e essas regras não são matemáticas ou precisas. Sob tal ponto de vista, tanto a qualidade quanto o “padrão” nada mais são que modelos referenciais de e para um determinado momento, de época, ou seja, que muda com o tempo em conformidade com novos conceitos, necessidades e desejos.
Tratam-se, portanto, de conceitos relativos e até mesmo subjetivos, estando sempre relacionados às percepções e necessidades de cada indivíduo e também a diversos outros fatores, como cultura, dentre outros.
Simplificando, o que é tido como padrão de qualidade e excelência atualmente, pode não ter sido no passado e certamente não será no futuro.
Muitas vezes ouve-se dizer: mas determinado cão “não é bom” pois está “fora do padrão (???)”.
Talvez até possa estar fora de um determinado “padrão” de época, de momento, mas não necessariamente esse aspecto o desqualifica a ponto de se poder caracterizá-lo como “bom ou ruim”. Muita subjetividade há nisso e, não raras as vezes, pouco ou nenhuma razão ou bom senso e, nem sempre aquele que é tido por ótimo em relação a determinado padrão é o melhor.
Isso mesmo, NEM SEMPRE O ÓTIMO EM RELAÇÃO A UM DETERMINADO PADRÃO É O MELHOR.

Para melhor compreensão, tentemos estabelecer paralelamente um exemplo comparativo de tal maneira que ilustre a afirmativa acima. A atriz Angelina Jolie já foi eleita a mulher mais bonita e sexy do ano por cinco vezes. A primeira foi aos 23 anos, em 1991 considerada a mulher mais bela e sexy do mundo e a segunda foi em 2000. Posteriormente, foi eleita mais três vezes (Revista People/2006; Revista “Vanity Fair”/2009; site ENTERTAINMENT WEEKLY/2018) e, obviamente há se pressupor que com tantas belas mulheres existentes no mundo, ela deve possuir uma série de características que a credenciam para tal posto.
Ocorre que, essa atriz jamais participou de qualquer concurso de miss ou outro semelhante, onde para que se obtenha sucesso, em geral diversas condições e requisitos são preliminarmente estabelecidos como referenciais e obrigatórios, considerando determinado “padrão” de medidas corporais, peso, comportamento e até mesmo a impossibilidade de ter sido casada ou ter filhos, dentre outras exigências. Certamente que, se candidata fosse, as possibilidades de ser ganhadora desses concursos em específico seriam mais difíceis e, até mesmo remotas.
O atendimento ao “PADRÃO ESTABELECIDO” para determinado evento muitas vezes se sobrepõe ao bom senso e à razão no que tange à finalidade em si, ou seja, a escolha do “MELHOR”.
MAS AFINAL DE CONTAS, O QUE TUDO ISSO TEM A VER COM CÃES E, EM ESPECIAL, COM ROTTWEILERS???

Em princípio nada, mas se conseguirmos observar tudo isso com um enfoque mais aprofundado e sob um prisma diferenciado, notaremos que de certa forma as coisas se entrelaçam e, de certa maneira se explicam e se complementam.
Vejamos então:
A grande maioria das pessoas quando quer adquirir um cão, em particular um Rottweiler, prepondera como critério de escolha, o aspecto visual, ou seja, as características físicas que os olhos enxergam,(o fenótipo).
Assim sendo, os “mais belos” em relação a determinado referencial tido como “padrão” serão sempre os que se destacarão à venda e, por consequência, serão sempre os mais procurados e valorizados por se julgar que são os que apresentam melhor “qualidade”.

Mas o que significa “estar conforme determinado padrão” ou apresentar “qualidade”?
A resposta a essa pergunta é muito complexa e um tanto quanto abstrata, e não raras as vezes encontra-se associada a alguma pesquisa de Internet ou outro meio de comunicação e pesquisa do gênero.
Mas afinal de contas, e o tal “padrão”, como se consegue entender como esse referencial funciona, ou seja, para que serve e em que condições é usado?
Muito simples, vejamos então:

O tal “padrão” é adotado para a fixação e o estabelecimento de características e referências, EM DETERMINADO MOMENTO, através das quais se pode nortear comparativamente os cães entre si e, fixar critérios de “melhor ou pior” àqueles que, comparados entre si (em torneios, competições, etc.), SE APRESENTAREM NAQUELE MOMENTO EM ESPECÍFICO, mais próximos desses referenciais previamente fixados. TRATA-SE SIMPLESMENTE DE UM MODELO.
Sob tal premissa, um determinado cão pode estar irretocável em relação a esse “padrão” estabelecido durante alguma apresentação em determinada circunstância ou competição e, posteriormente, em outra ocasião, já não estar tão bem, assim.
Trata-se de um conceito que além do fenótipo, envolve ainda uma certa preparação e caracterização para determinada ocasião de apresentação, condições essas que não compõem necessariamente a carga genética do animal e, portanto, nem sempre são transmissíveis aos descendentes.
SOB TAL ASPECTO, NEM SEMPRE O TAL “CÃO PADRÃO” SE CONSTITUI NA MELHOR MATRIZ PARA CRIAÇÃO.
Obviamente que, existem “regras e padronização” de uma série de condições para os Rottweilers de competição. Essas regras vão desde determinadas condições de fenótipo (pelagem, marcações dos pelos, olhos, etc.), movimentação ao andar, tamanho, dentição, dentre outros, até referências de tamanhos e peso idealizados.
Assim sendo temos por exemplo:

A) Tamanho: O Rottweiler é um cão de médio porte, de 61cm a 68cm para machos e de 56cm a 63cm para fêmeas, medidos da cernelha ao solo numa perpendicular com este. A média de altura das fêmeas na Alemanha tem aumentado nos últimos anos. Cães muito pequenos ou grandes demais não são desejáveis. Os pequenos perdem em força e potência e os grandes demais são lerdos e de movimentação pobre além de, geralmente, mostrarem-se preguiçosos e sem nobreza.
B) Peso: A média atual gira em torno de 55kg para machos e 45kg para fêmeas. Este peso é distribuído aproximadamente em:
- Músculos → 53%
- Ossos → 14%
- Pelagem → 12%
- Sangue → 8%
- Órgãos internos, gordura, etc. → 13%
Como se nota, de certa maneira, até mesmo na “padronização”, observa-se alguma flexibilidade e até mesmo subjetividade.
Frases como: “não são desejáveis”; “a média atual gira em torno de”; “é distribuído aproximadamente em”, denotam flexibilidade e até mesmo bom senso quando da análise e não rigidez quanto aos critérios de aprovação e/ou reprovação de determinado cão em relação a determinados fatores em julgamento em circunstâncias específicas e de momento.

Atualmente, muitos procuram insistentemente adquirir Rottweilers de grande porte, com massa corpórea e tônus muscular que os leva facilmente a mais de 60kg para os machos e mais de 55kg para as fêmeas e, com cabeças igualmente grandes. Não obstante o fato de que esse tipo de Rottweilers deva sempre ter uma certa personalização de cuidados especiais e diferenciados no tocante à manutenção da saúde e da longevidade em decorrência da sua estrutura corpórea e peso, há de se observar que, desde que haja proporcionalidade nessa estrutura corporal (cabeça, corpo, altura, etc.), são até muito mais belos e imponentes que alguns Rottweilers que se encaixam rigorosamente dentro das médias das “especificações padrão” da raça.
Seriam então esses cães considerados “fora das especificações da raça” ou, ao contrário, seriam mais diferenciados em relação a um “padrão médio (mediano)”, onde há muitos iguais???
Pergunta difícil de responder, mas que pode nos levar a duas direções plausíveis, sendo a hipótese da diferenciação por mérito a mais sensata a ser adotada.

Voltando ao caso da analogia anteriormente feita com a atriz Angelina Jolie, comparação essa que também pode ser estendida a inúmeras outras personagens igualmente belas e conhecidas em todo o mundo, sendo que, não é porque não atendem a determinado “padrão” arbitrado em determinada época, para que pudessem ou possam participar e terem êxito em determinados concursos de beleza, que não são julgadas belas e até mesmo admiradas cobiçadas por muitas pessoas em todo o mundo (TRATA-SE AQUI DA DIFERENCIAÇÃO POR MÉRITO).
Esses personagens citados são justamente diferenciados por mérito e destacam-se justamente por estarem muito fora do padrão mediano dos demais, ou seja, estão muito além desse referencial. Também aqui, o tal “padrão” é igualmente adotado para a fixação e o estabelecimento de características e referências, em determinado momento e para determinada circunstância.
Trata-se de um critério específico e momentâneo e, desde que não haja eventuais circunstâncias que envolvam aspectos de saúde (obesidade, displasia, prognatismo, etc.), devem sempre ser adotados com critério e muito bom senso por parte de quem os julga.

Então, a escolha de um filhote de Rottweiler tendo por referência uma ou mais fotos ou ilustrações que, por vezes se encontram postadas nos diversos veículos de comunicação existentes atualmente na Internet, deve estar sempre respaldada por uma certa pitada de bom senso e uma grande parcela de aprofundamento e coerência por parte de quem assim procede e honestidade por parte de quem oferta o filhote à venda.
Imaginemos que uma determinada pessoa vislumbra adquirir um filhote de Rottweiler com um determinado perfil caracterizado por fotos e/ou ilustrações. Nada de mal há nisso, mas entre achar os pais que tenham tais características, escolher um filhote que aparentemente as tenha enquanto juvenil e o criador garantir que essas mesmas características se manterão fixadas ao seu fenótipo quando o animal estiver adulto, muitas circunstâncias e variáveis irão estar associadas a tudo isso e, as incógnitas serão muito superiores que as certezas.
O BOM SENSO E A HONESTIDADE DEVEM CONCLUIR QUE ISSO NÃO É POSSIVEL DE SER GARANTIDO DESSA FORMA.
FICA A DICA!!!

