Outro assunto muito polêmico, onde há mais controvérsias que consenso. Vamos procurar aqui neste artigo técnico abordá-lo de maneira mais aprofundada, porém sem qualquer objetivo de promover discussão ou mais polêmica que o tema em si já apresenta.
Sob o aspecto morfológico da palavra, veganismo é a prática de abster-se do uso de produtos animais (particularmente, mas não somente, na alimentação), e também uma filosofia que condena a exploração animal. Um adepto deste modo de viver e dessa filosofia é conhecido como vegano ou vegana.

Como resultado de seus princípios éticos, veganos adotam uma dieta à base de vegetais, excluindo carne, leite e derivados, ovos, mel, ou qualquer outro produto proveniente de um animal.
Essa alimentação tende a conter maior teor de fibra dietética, magnésio, ácido fólico, vitamina C, vitamina E, ferro, e fito-nutrientes, mas menor teor de gordura saturada, colesterol, ômega-3, vitamina D, cálcio, zinco, e principalmente a vitamina B12, sendo muitas vezes necessária a suplementação ou ingestão de alimentos fortificados com determinados nutrientes.
Existem aminoácidos e vitaminas que os cães obtêm exclusivamente pela alimentação, ou seja, não são sintetizados pelo seu próprio organismo. Os aminoácidos essenciais totalizam 10 nos cães. Quanto às vitaminas, podemos citar o ácido fólico e, principalmente a vitamina B12, já citada anteriormente, somente encontradas em ingredientes de origem animal.
O veganismo, porém, não se restringe à alimentação: veganos não adquirem vestimentas e produtos derivados de peles de animais, como couro ou lã, e não frequentam lugares que utilizam animais para entretenimento, tais como rodeios ou zoológicos. Além disso, não usam produtos cosméticos testados em animais, como determinados shampoos e maquiagens.
Em um artigo técnico anteriormente publicado neste mesmo BLOG e intitulado “Posso dar carne crua para meu cão???” (Sugere-se a leitura aos leitores interessados para maior aprofundamento no assunto), apresentamos uma série de conceitos técnicos devidamente embasados à luz da ciência, que justificam a necessidade de ingestão de proteína de origem animal em sua dieta regular.
Ainda tendo por referência o artigo técnico citado, sob tal contexto, dentre inúmeras explicações, consta o seguinte:
“Primeiramente há de se considerar que os cães de um modo geral são animais carnívoros. Isso significa que o seu organismo foi adaptado ao longo dos séculos para digerir carnes, vísceras, gordura de origem animal e até mesmo alguns ossos, desde que estejam crus. Obviamente que, não se pode deixar de reconhecer que, à medida que os canídeos foram sendo domesticados pelo homem e, por consequência diversas raças sendo desenvolvidas para as mais variadas finalidades (caça; esportes; guarda e proteção; farejamento; companhia; dentre outros), pode-se considerar que também acabou por ocorrer determinados “ajustes na anatomia” desses cães domesticados em relação aos seus ancestrais primitivos, condição essa que também vale para o seu comportamento e para as preferências alimentares, nos remetendo a uma linha de raciocínio que esses cães domésticos até poderiam ser considerados onívoros, ou seja, são capazes de comer e permanecer saudáveis com fontes de alimentos variadas, tanto animais quanto vegetais. Na verdade, essa linha de raciocínio não é bem assim, ou seja, embora até possa ter alguma lógica, os canídeos são considerados quanto à sua base alimentar, animais carnívoros”.

“Há de se reconhecer, no entanto, que os cães são capazes de digerir e aproveitar os nutrientes de determinados vegetais, tais como alguns legumes e frutas, mas sua morfologia e metabolismo indicam que esse “pseudo onivorismo” é infinitamente mais limitado que o da espécie humana, por exemplo. Basta observar como a dentição dos cães que é composta por dentes que furam, dilaceram carne e destroem ossos, difere substancialmente da dentição humana, que favorece substancialmente a mastigação”.

“A quantidade de amilase (uma enzima que inicia a digestão do amido) na saliva do cão é quase insignificante; enquanto que na boca humana é abundante. Os canídeos apresentam estômagos relativamente grandes em relação ao corpo e, intestinos delgados curtos, inadequados para a digestão de carboidratos complexos, tais como grãos. Cães produzem sua própria vitamina C, praticamente dispensando a suplementação dessa substância originalmente presente nos vegetais. O pH estomacal dos cães é extremamente ácido (chegando a 1), o que nos leva a concluir facilmente que resulta de uma provável adaptação natural da espécie ao longo dos anos para o consumo de carnes cruas (inclusive por vezes até mesmo contaminadas) ”.

Embora os cães sejam animais carnívoros, há de se reconhecer que é possível oferecer a comida vegana a eles, porém, para ser balanceada e atender às demandas metabólicas do organismo canino, essa dieta nunca pode ser completamente natural e sempre precisa ser suplementada. É justamente aí que os problemas começam, pois, formular dietas veganas para cães que contenham todos os nutrientes necessários é uma tarefa extremamente difícil, até mesmo para veterinários especialistas em nutrição.

Embora o sistema digestivo canino até utilize algumas fontes alimentares de origem vegetal de forma satisfatória, fontes alimentares de origem animal são muito mais fáceis de serem processadas pelos cães. Frutas e vegetais são bons provedores de vitaminas e antioxidantes, mas não têm as quantidades necessárias a essa espécie, de gorduras e proteínas. Proteínas derivadas de fonte de origem animal (como colágeno, elastina e queratina) que são essenciais para a saúde da pele, músculos e articulações, são difíceis, ou até impossíveis, de serem obtidas através de uma ração vegana. Para exemplificar como é difícil formular adequadamente uma dieta canina sem ingredientes de origem animal, em 2019 foi publicado um estudo científico que verificou na época, todas as dietas veganas disponíveis no mercado brasileiro de PETFOOD e concluiu-se que todas elas possuíam deficiências de um ou mais nutrientes essenciais em sua composição.
Concluindo, podemos dizer que, a menos que a dieta seja formulada com muito cuidado e critério e, por um veterinário realmente especialista em nutrição, fornecer aleatoriamente uma dieta vegana para seu cão pode comprometer sua saúde e deixá-lo, na melhor hipótese, malnutrido.
Apesar de em tese e teoricamente, poderem até existir alguns cães veganos e, até mesmo muito longevos, esse questionamento pode ser muito mais complexo, pois não se pode deixar de compreender que esse tipo de dieta está longe de ser ideal para cães e, pode ser até perigosa em determinados casos.
Uma coisa é oferecer de forma complementar e rotineira determinados petiscos de origem vegetal (tais como cenouras, brócolis, beterraba, dentre outros), outra coisa totalmente diferente é trocar toda a dieta alimentar do animal por ingredientes que não tenham qualquer composição de origem animal.
Ainda que seja de extrema importância haver preocupação humana com o bem-estar dos animais e também com questões voltadas a aspectos éticos e pessoais, quando se trata da alimentação dos cães, a vida e saúde dos mesmos devem estar sempre em primeiro lugar.

